Tensão entre aliados: Netanyahu pediu aos EUA que instigassem novas revoltas no Irã; Trump recusou por risco de massacre
Netanyahu teria pedido aos EUA que incentivassem novas revoltas no Irã; Trump recusou por receio de massacre, revelando tensões entre aliados.
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Tensão entre aliados: Netanyahu pediu aos EUA que instigassem novas revoltas no Irã; Trump recusou por risco de massacre
Por Marco Severini – A cena diplomática entre Washington e Jerusalém revela, nos bastidores, um movimento decisivo no tabuleiro da política externa. Segundo relatos de duas fontes dos serviços americanos e de uma fonte israelense, todas sob condição de anonimato, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu teria proposto aos Estados Unidos que incentivassem a eclosão de novas revoltas populares no Irã durante a terceira semana de guerra. O então presidente Donald Trump recusou a iniciativa, considerando-a excessivamente arriscada.
O episódio, ocorrido horas após os assassinatos de Ali Larijani e de Gholamreza Soleimani, expõe as fendas silenciosas entre aliados que, no front externo, mantém uma linguagem de unidade, mas no privado reconsideram estratégias e limites. Para Washington, Larijani representava uma peça potencial de regime-change; para setores israelenses, sua eliminação teria sido também uma jogada política destinada a excluir qualquer intermediário capaz de negociar.
Fontes informadas já haviam apontado, antes do dia 28 de fevereiro, para a influência da CIA e do Mossad nas manifestações que sacudiram o regime dos aiatolás. Agora, segundo os mesmos interlocutores, as tentativas de promover agitações internas teriam prosseguido mesmo em plena conflagração, como uma estratégia de desgaste que beneficiaria interesses israelenses, caso viesse a ocorrer uma escalada interna em Teerã.
A recusa de Trump foi motivada por um cálculo de risco: na avaliação do então presidente, convocar a população para as ruas em meio ao conflito equivalia a empurrar civis para uma provável tragédia. Uma citação atribuída a ele — «Por que diabos deveríamos pedir às pessoas que saiam às praças quando seriam facilmente dizimadas?» — resume a lógica realpolitik que prevaleceu no momento. Essa visão, pragmática e sombria, contesta a perspectiva de quem privilegia o curto prazo estratégico sobre o custo humano e o impacto político internacional.
Para Jerusalém, animar protestos durante datas simbólicas, como a Festa do Fogo persa, poderia ter funcionado como catalisador de mobilização contra o regime. Para Washington, no entanto, a possibilidade de um massacre de manifestantes feria os alicerces da diplomacia e poderia provocar um efeito de repúdio global, além de desestabilizar ainda mais uma região já geoestrategicamente volátil.
O episódio demonstra uma tectônica de poder onde aliados jogam em sintonia distante: convergência de objetivos estratégicos, divergência nos meios aceitáveis. Ao optar pelo freio, Trump privilegiou a contenção do dano imediato e a previsibilidade do cenário. Ao promover a ação, Netanyahu buscava ampliar pressões sobre Teerã, mesmo à custa de escaladas internas imprevisíveis.
É uma lição de arquitetura estratégica: os alicerces frágeis da aliança ocidental no Oriente Médio exigem mais do que intenções comuns — exigem congruência de prudência e de cálculo político. Nas próximas semanas, os efeitos desse atrito serão um indicador claro da direção que o eixo de influência adotará, e se a diplomacia conseguirá reconstruir uma estratégia coerente que evite movimentos impulsivos no tabuleiro.
As fontes permanecem anônimas; a narrativa oficial segue poupando detalhes. Mas a leitura geopolítica é evidente: quando aliados discordam sobre métodos que podem provocar vítimas civis em larga escala, a escolha entre audácia e contenção define não só campanhas, mas a própria credibilidade do conjunto de políticas que pretendem redesenhar fronteiras — visíveis e invisíveis — no cenário regional.