Oreshnik: o míssil de alta velocidade que amplia a tensão geopolítica sobre a Europa

Oreshnik: Rússia lança míssil de médio alcance com capacidade nuclear; alcance, velocidade e implicações para a segurança europeia.

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Oreshnik: o míssil de alta velocidade que amplia a tensão geopolítica sobre a Europa

Na noite de 24 de maio a Rússia lançou um míssil de médio alcance denominado Oreshnik, declarado apto a transportar carga nuclear, no contexto de ataques massivos contra a Ucrânia. A investida, que provocou condenações de líderes europeus e foi qualificada pelo presidente ucraniano Volodymyr Zelensky como “de loucos”, combinou diversos vetores: segundo fontes ucranianas, houve o emprego de cerca de 90 mísseis de tipos variados — 36 balísticos entre eles — e aproximadamente 600 drones. O primeiro-ministro ucraniano registrou danos significativos, com destruição concentrada em Kiev e relato de que nem todos os mísseis balísticos foram interceptados.

O Oreshnik é apresentado pela Rússia como um míssil balístico de médio alcance (MRBM), lançado pela primeira vez contra a cidade de Dnipro em 2024. Onome, que traduzido literalmente seria "amendoim" ou "nocciolina", contrasta com suas características militares: alcance estimado entre 3.000 e 5.500 km, possibilidade de armamento nuclear e, segundo a liderança russa, capacidade de atingir alvos “em toda a Europa”.

Sergei Karakayev, comandante das Forças de Mísseis Estratégicos da Rússia — instituição responsável pelo arsenal nuclear e pelo programa de mísseis balísticos — confirmou que o Oreshnik integra esse repertório e pode alcançar objetivos europeus. O presidente bielorrusso Alexander Lukashenko, aliado do Kremlin, declarou em dezembro o desdobramento dessa plataforma em solo bielorrusso, posicionando-a no flanco oriental da OTAN.

O presidente russo Vladimir Putin afirmou que o míssil é “impossível” de ser interceptado, chegando a velocidades declaradas na ordem de Mach 10 (aproximadamente 2,5–3 km/s). Analistas internacionais, porém, situam o Oreshnik num lugar técnico intermediário: ele atinge velocidades hipersônicas durante a fase de reentrada, como ocorre com outros mísseis balísticos intermediários e intercontinentais, mas não exibiria as manobras sustentadas características das modernas armas hipersônicas manobrantes.

Marcin Andrzej Piotrowski, do Instituto Polonês de Assuntos Internacionais, observa que as ogivas do Oreshnik “atingem alvos a velocidade hipersônica ao reingressar na atmosfera, porém sem as manobras em alta velocidade que tornariam sua interceptação ainda mais complexa”. Essa distinção técnico-operacional é crucial: nos tabuleiros da defesa antimíssil, a diferença entre trajetória balística e manobra hipersônica altera profundamente as janelas de reação e os requisitos de arquitetura defensiva.

Do ponto de vista estratégico, o Oreshnik não é classificado como míssil balístico intercontinental (ICBM), que ultrapassa 5.500 km de alcance. Ainda assim, especialistas ressaltam que, em teoria, um lançamento a partir do Extremo Oriente russo poderia colocar trechos da costa oeste dos Estados Unidos dentro do envelope de alcance.

A emergência dessa capacidade ramifica-se em decisões políticas recentes: até 2019, o Tratado INF — fruto da Guerra Fria e vigente desde 1987 — proibiu o desdobramento de mísseis desse tipo entre EUA e Rússia. A retirada americana do acordo em 2019 abriu espaço para uma nova corrida por mísseis de médio alcance. Ao final de 2024, em reunião pública com líderes militares, Putin afirmou que Moscou dispunha de um estoque desses mísseis "pronto para uso".

Como analista, observo que o anúncio e o emprego operacional do Oreshnik representam um movimento decisivo no tabuleiro da segurança euro-atlântica: reposicionam capacidades estratégicas, recalibram as prioridades de defesa aérea e redesenham fronteiras invisíveis de dissuasão. A tectônica de poder que se observa exige resposta composta — diplomática, tecnológica e de arquitetura coletiva — por parte dos atores europeus e transatlânticos, sob pena de ver alicerces frágeis da estabilidade regional corroerem-se em curto prazo.

Marco Severini
Analista sênior de geopolítica e estratégia internacional — Espresso Italia