Papa Leão na Guiné Equatorial: apelo a políticas contracorrente por paz e justiça

Papa Leão pede na Guiné Equatorial políticas contracorrente por paz e justiça, critica extrativismo e alerta contra violações dos direitos humanos.

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Papa Leão na Guiné Equatorial: apelo a políticas contracorrente por paz e justiça

Por Marco Severini — Em um discurso de sentido estratégico na capital Malabo, o Papa Leão lançou um apelo claro e preciso: é tempo de estimar quem trabalha pela paz e de ousar políticas contracorrente, colocando o bem comum no centro das decisões. Diante das autoridades, da sociedade civil e do corpo diplomático da Guiné Equatorial, o Pontífice traçou um diagnóstico difícil: vivemos "num mundo ferido pela prepotência" onde povos inteiros "têm fome e sede de justiça".

Com a gravidade própria de quem observa os movimentos tectônicos do poder, o Papa Leão reclamou um "mudança de passo na assunção de responsabilidade política" e a observância estrita das instituições e dos acordos internacionais — alicerces indispensáveis para evitar que "o destino da humanidade venha tragicamente comprometido".

O Pontífice também denunciou a lógica do extrativismo sem escrúpulos, apontada como fonte recorrente de conflitos e desigualdades. A advertência foi direta: jamais invocar o nome de Deus para "justificar escolhas e ações de morte". "O Seu Nome santo não pode ser profanado pela vontade de domínio, pela prepotência e pela discriminação", afirmou, lembrando o perigo de se usar a fé como cobertura para ambições de poder.

A recepção à comitiva papal em Malabo, ilha de Bioko e principal centro econômico do país, foi calorosa: milhares saudaram o cortejo com bandeirinhas, cânticos e danças. Ao lado do Papa Leão estava o presidente Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, o mesmo que recebeu João Paulo II em 1982. Obiang, atualmente com 83 anos, é o chefe de Estado africano em exercício há mais tempo, no poder desde o golpe de 1979 que depôs o seu tio, Francisco Macías. Sua longa permanência no comando e as repetidas acusações de graves violações de direitos humanos colocam o país sob o olhar crítico da comunidade internacional.

O contraste é nítido: embora a economia dependa fortemente das exportações de petróleo, com campos significativos de hidrocarbonetos, cerca de 70% da população vive em condições de pobreza. Nesse cenário, a presença majoritária da Igreja Católica — superior a 80% da população — confere peso moral às palavras do Papa, e a festa popular que o acompanhou nas ruas e em visitas institucionais (ao campus universitário e ao Hospital Psiquiátrico Jean-Pierre Olie) traduziu a complexa combinação entre fé, expectativa social e frustração econômica.

No discurso às autoridades, o Pontífice recorreu a Santo Agostinho e ao seu De civitate Dei para provocar uma pergunta fundamental: que cidade se serve quando se governa? O questionamento incide diretamente sobre o ambicioso projeto da nova capital, Ciudad de la Paz, iniciado em 2008 numa área de densa floresta equatorial continental. É uma peça relevante de um tabuleiro em que se redesenham fronteiras visíveis e invisíveis — projeto urbanístico, interesses econômicos e imagem internacional.

O Papa instou a Guiné Equatorial a rever suas trajetórias de desenvolvimento e a aproveitar oportunidades para posicionar-se na cena internacional em defesa do direito e da justiça. Refez o apelo deixado pelo seu predecessor, o Papa Francisco: dizer não a uma economia da exclusão e da inequidade, cujos mecanismos «matam» ao sufocar dignidade e esperança.

Num gesto de memória institucional, foi lembrado também o legado do Papa Francisco durante o voo que conduziu a comitiva à Guiné Equatorial, sinalizando continuidade e responsabilidade na magistratura moral da Igreja. Em termos geopolíticos, trata-se de um movimento deliberado no tabuleiro: um chamado à responsabilidade coletiva para estabilizar alicerces frágeis e evitar que interesses extrativos determinem, sem freios, o destino de povos inteiros.