Papa Leone em Bamenda: “O mundo devastado por uma mão de tiranos” e o ataque à exploração da África

Papa Leone em Bamenda denuncia tirania e exploração do continente africano, enfrenta críticas de Trump e pede responsabilidade dos líderes camaronenses.

Papa Leone em Bamenda: “O mundo devastado por uma mão de tiranos” e o ataque à exploração da África

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Papa Leone em Bamenda: “O mundo devastado por uma mão de tiranos” e o ataque à exploração da África

Por Marco Severini — Em um discurso incisivo na Catedral de São José, em Bamenda, no noroeste do Camarões, Papa Leone XIV fez um alerta solene contra aqueles que instrumentalizam a religião para fins militares, econômicos e políticos. “Guai a coloro che manipolano la religion e il nome stesso di Dio per i propri interessi militari, economici e politici, trascinando ciò che è sacro nell’oscurità e nella sporcizia”, declarou o Pontífice, numa intervenção que combina moralidade e geopolítica em tom severo.

A visita a Bamenda — epicentro de uma insurgência separatista de língua inglesa que se arrasta por quase uma década — ocorreu num pano de fundo de violência que, segundo as Nações Unidas, já causou pelo menos 6.000 mortes desde 2016. A região define um dos pontos mais sensíveis do tabuleiro africano contemporâneo, onde tensões internas se entrelaçam com interesses externos e dinâmicas de poder local.

“O mundo é devastado por uma mão de tiranni, eppure è tenuto insieme da una moltitudine di fratelli e sorelle solidali”, afirmou o Papa Leone, numa mensagem que ressoa como um apelo à solidariedade e à responsabilidade dos atores estatais e não estatais envolvidos. O tom do Pontífice ganhou dimensão diplomática ao mesmo tempo em que alimentou um novo episódio da sua troca pública de críticas com o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

O diálogo tenso entre o Vaticano e Washington atingiu ontem outra nota quando Trump declarou aos jornalistas que o Papa pode comentar assuntos internacionais, mas precisa compreender as “realidades de um mundo cruel”. Em seguida, o ex-presidente adotou um tom mais conciliador, embora tenha reafirmado acusações graves sobre os acontecimentos no Irã — alegando que mais de 42.000 pessoas teriam sido mortas nos últimos meses — e exortando o Pontífice a reconhecer essa dimensão do “mundo real”.

Na saída da catedral, Papa Leone soltou pombas brancas, símbolo universal de paz, num gesto cuidadosamente coreografado para uma terra que descreveu como “ensanguentada, mas fértil, que foi maltratada”. No aeroporto de Bamenda — recentemente reestruturado para sua passagem após ter sido fechado desde 2019 devido à insurgência — o Pontífice fez uma condenação frontal ao exploração contínua do continente africano em nome do lucro.

“Aqueles que, em nome do lucro, continuam a pôr as mãos sobre o continente africano para explorá-lo e saqueá-lo”, disse ele, numa referência implícita tanto a corporações quanto a elites locais que beneficiam da extração de recursos. O Camarões é rico em petróleo, madeira, cacau, café e minerais — matérias-primas que compõem os alicerces frágeis da diplomacia e da economia regional.

Ao chegar ao país, o Papa Leone havia convocado os líderes camaronenses a um exame de consciência, pedindo que enfrentem a corrupção e as violações de direitos humanos. O apelo foi proferido no Palácio Presidencial, com a presença do de longa data presidente Paul Biya, e definiu um claro gesto de pressão moral sobre as instituições do Estado.

Após a cerimônia em Bamenda, o Pontífice seguirá para uma missa em um estádio de Douala, a capital econômica, antes de deixar o Camarões rumo a Angola e, em seguida, à Guiné Equatorial. No tabuleiro das políticas africanas, esta viagem papal assume caráter estratégico: um movimento que busca redesenhar influências, denunciar abusos e reconstruir pontes de legitimidade moral e política.

Como analista, vejo nessa visita um jogo de múltiplas camadas: apelos éticos, mensagens geopolíticas e sinais estratégicos dirigidos tanto às elites locais quanto aos atores globais — um lance cuidadoso sobre uma matriz de tensões que continuará a moldar a tectônica de poder no continente.