Paquistão amplia laços econômicos com o Irã e mira US$10 bilhões em comércio bilateral
Paquistão e Irã visam US$10 bi em comércio bilateral; rotas terrestres e fronteiras 24h reforçam papel de Islamabad como hub regional.
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Paquistão amplia laços econômicos com o Irã e mira US$10 bilhões em comércio bilateral
Por Marco Severini – Em um movimento de arquitetura estratégica que redesenha linhas de influência no sul da Ásia, o Paquistão intensificou seus laços econômicos com o Irã. O primeiro-ministro Shehbaz Sharif recebeu em Islamabad, no dia 5 de agosto, uma delegação iraniana chefiada pelo ministro da Indústria, Minas e Comércio, Mohammad Atabak, e das conversações saiu uma meta ambiciosa: elevar o interscambio comercial bilateral para US$10 bilhões por ano, mais que o triplo do volume atualmente estimado em torno de US$3 bilhões.
O encontro, parte do 10º Meeting of Pakistan-Iran Joint Trade Committee, durou dois dias e consolidou protocolos destinados a acelerar fluxos comerciais mediante a melhoria da logística, a harmonização de procedimentos aduaneiros e a manutenção de valas fronteiriças operando 24 horas por dia. Em termos práticos, Islamabad e Teerã concordaram em manter os postos fronteiriços abertos 24/7, facilitar o trânsito de produtos agrícolas, alimentos e matérias-primas e aprofundar a cooperação no setor mineral.
No tabuleiro regional, a decisão tem implicações claras: o Paquistão institui-se como um hub logístico alternativo e como um ator disposto a ampliar corredores terrestres para aliviar portos como Gwadar e Karachi. Em abril, já havia sido autorizada a criação de seis rotas terrestres de abastecimento para o Irã, uma resposta prática ao que Islamabad descreve como as restrições impostas pelo bloqueio naval dos EUA sobre Teerã. Essas rotas permitem o ingresso de mercadorias de terceiros países por vias terrestres, contornando assim os constrangimentos marítimos e reforçando o papel do Paquistão na cadeia de abastecimento regional.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um movimento calculado: não apenas um aumento de comércio, mas o reposicionamento de influência numa região onde as infraestruturas e os corredores logísticos definem poder. O Paquistão tem atuado como mediador entre o Irã e os Estados Unidos durante episódios recentes do conflito, e agora amplia seu capital diplomático ao oferecer soluções concretas de conectividade e abastecimento.
Esses desenvolvimentos também dialogam com as transformações mais amplas da logística eurasiática. A nova geografia dos corredores ferroviários e portuários, bem como possíveis recalibrações no Afeganistão — de país-cuscinetto a potencial cruzamento entre Irã, Ásia Central e China —, desenham um mapa onde as rotas terrestres ganham centralidade. Em outra palavra: o tabuleiro está sendo redesenhado e o Paquistão reposiciona suas peças com racionalidade e método.
Em Islamabad, responsáveis governamentais ressaltam que o aumento do comércio beneficiará sobretudo o fluxo de alimentos, insumos agrícolas e bens relacionados, além de fomentar investimentos no setor minerário. A implementação prática exigirá, contudo, coordenação aduaneira rigorosa, segurança nas passagens transfronteiriças e investimentos em infraestrutura para garantir eficiência e previsibilidade.
Como analista, observo que esta manobra alia cálculo econômico e considerações de Realpolitik: ao viabilizar rotas terrestres e abrir fronteiras em tempo integral, o Paquistão amplia sua relevância como plataforma logística e cria alicerces para uma influência mais duradoura no eixo Irã–Sul da Ásia. No jogo diplomático internacional, é um movimento que busca transformar vantagem logística em capital geopolítico.
Em resumo, o anúncio de Islamabad e Teerã é mais do que metas numéricas; é um movimento decisivo no tabuleiro que pode redefinir fluxos comerciais e recalibrar a tectônica de poder na região.