Pollock alcança recorde em leilão: 'Number 7A (1948)' vendido por US$ 181,2 milhões

Pollock atinge recorde em leilão: "Number 7A (1948)" vendido por US$ 181,2 milhões na Christie's Nova York; repercussões no mercado da arte.

Pollock alcança recorde em leilão: 'Number 7A (1948)' vendido por US$ 181,2 milhões

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Pollock alcança recorde em leilão: 'Number 7A (1948)' vendido por US$ 181,2 milhões

Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, mesmo que simbolicamente, linhas de poder no mercado da arte, um quadro de Jackson Pollock foi arrematado por 181,2 milhões de dólares em leilão realizado ontem pela Christie's em Nova York. A tela "Number 7A (1948)", de mais de três metros, marcada por gotejamentos negros e pontuais toques de vermelho, atingiu o valor indicado já com as comissões incluídas.

Segundo apuração do ARTnews, trata‑se da quarta maior cifra já paga por uma obra em leilão. O resultado representa um salto tectônico em relação ao recorde anterior de leilão para Pollock, estabelecido em 2021 em 61,2 milhões de dólares, e aproxima o mercado de vendas privadas de obras do artista, que por vezes chegaram a cerca de 200 milhões de dólares.

A Christie's observou, em nota, que é com "Number 7A" que Pollock se emancipa definitivamente das amarras da pintura de cavalete convencional, produzindo um dos primeiros quadros verdadeiramente abstratos da história moderna. No tabuleiro da história da arte, esse lance é interpretado como um movimento decisivo que consolidou a técnica do dripping como linguagem.

A sessão nova-iorquina não se limitou ao ícone do expressionismo abstrato. A cabeça em bronze "Danaide", esculpida por Constantin Brancusi por volta de 1913, alcançou 107,6 milhões de dólares, ultrapassando seu recorde anterior de 71,2 milhões. Do campo pictórico americano, Mark Rothko teve seu "No. 15 (Two Greens and Red Stripe)" arrematado por 98,4 milhões, enquanto o catalão Joan Miró viu "Portrait of Madame K." ser vendido por 53,5 milhões.

Os valores superaram antigos recordes de leilão: Rothko, cujo máximo era 86,9 milhões, e Miró, cujo patamar estava em 37 milhões (ambos de 2012), sofreram o deslocamento natural diante de uma demanda que redefine valores e preferências no mercado global.

Este leilão sucede uma sequência de cifras recordes registrada pela concorrente Sotheby's no novembro passado, quando o "Portrait of Elisabeth Lederer", de Gustav Klimt (1914–1916), atingiu 236,4 milhões, tornando‑se a segunda obra mais cara já vendida em leilão. Na mesma movimentação de alta, Frida Kahlo teve "The Dream (The Bed)" (1940) vendido por 54,7 milhões, estabelecendo um marco para pinturas produzidas por mulheres. O título de obra mais cara permanece com o controverso "Salvator Mundi", atribuído a Leonardo da Vinci, comprado por aproximadamente 450 milhões de dólares em 2017.

Mais do que cifras, esses resultados representam a força e a fragilidade simultâneas dos alicerces financeiros e simbólicos que sustentam a diplomacia cultural contemporânea. Em termos estratégicos, cada martelo que cai em Nova York não apenas define preços: reposiciona coleções, realinha reputações e reconfigura redes de influência — como um lance calculado em um jogo de xadrez cujas peças se movem entre galerias, museus e cofres privados.

Enquanto o mercado absorve os novos parâmetros, permanece a interrogação sobre os fundamentos que legitimam tais avaliações: raridade, proveniência, conjuntura financeira e o próprio senso coletivo de valor estético. Em qualquer caso, a venda de "Number 7A (1948)" fica registrada como um marco de época, um ponto de inflexão na cartografia do colecionismo global.