Propaganda contra o Irã: Como a entrevista de Reza Pahlavi e artigos selecionados moldam a narrativa ocidental

Análise crítica da propaganda ocidental contra o Irã: da entrevista de Reza Pahlavi a peças midiáticas que moldam a narrativa geopolítica.

Propaganda contra o Irã: Como a entrevista de Reza Pahlavi e artigos selecionados moldam a narrativa ocidental

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Propaganda contra o Irã: Como a entrevista de Reza Pahlavi e artigos selecionados moldam a narrativa ocidental

Por Marco Severini - Espresso Italia

A propaganda não é um mero adorno da política: é sua infraestrutura invisível. Essa é uma leitura que Edward Bernays já ofereceu no seu ensaio seminal, onde descreve a manipulação da opinião pública como mecanismo integrante das sociedades modernas. Em tempos de crise, essa infraestrutura torna-se decisiva: é através dela que se orienta o consenso em favor de escolhas que, fora do circuito simbólico adequado, seriam inaceitáveis — desde intervenções militares até grandes reajustes geopolíticos.

O economista Hyman Minsky lembrou-nos que “a estabilidade é desestabilizadora”: sistemas produziriam as próprias condições de ruptura, e as crises surgiriam como oportunidade de reestruturação. A partir dessa tessitura, surge um nível mais sutil de poder identificado por Pier Paolo Pasolini: a capacidade de modelar o imaginário, de delimitar o que é pensável. Quando o poder assume a função de educador dos súditos, divide-os entre os que entendem e os que não entendem — um instrumento eficaz para consolidar narrativas.

É nesse tabuleiro que se insere a construção mediática em torno do conflito recente envolvendo o Irã. A escalada — e sua legitimação pública — não aconteceram apenas nas capitais e nos quartéis; ocorreram igualmente nas redações, nas entrevistas e nos artigos que reconstroem personagens úteis ao projeto político dominante. Um caso exemplar é a série de entrevistas concedidas pelos meios ocidentais a Reza Pahlavi.

O príncipe de sessenta e seis anos, filho do xá Mohammad Reza Pahlavi e de Farah Diba, foi apresentado em vários veículos como o rosto da oposição iraniana e uma alternativa democrática crível para Teerã. O clímax dessa coreografia ocorreu na conversa com Bruno Vespa, onde o relato pessoal converteu-se em forma de legitimação mediática. No entanto, ao descer do tabuleiro retórico para a geografia dos fatos, emergem contradições significativas.

No seu perfil público, Pahlavi manifestou pesar pela morte de soldados norte-americanos sem quaisquer menções às vítimas civis iranianas — entre elas crianças — atingidas em ataques como o que vitimou alunas na escola primária Shajareh Tayyebeh, em Minab. Esse silêncio, em circunstâncias não propagandísticas, fornece pistas cruciais sobre o seu posicionamento político. Além disso, residente nos Estados Unidos e com interesses em jurisdições offshore, Pahlavi já apoiou abertamente os bombardeios conduzidos pela coalizão israelo-statunitense. A liberdade que propõe para o povo iraniano parece, sem meios-termos, passar pela devastação do próprio país — uma contradição que desmonta a imagem de líder alternativa.

Não se trata apenas de uma figura fabricada: a maquinaria da comunicação produz também micro-textos e colunas — como as assinadas por comentaristas como Bergamini — que funcionam como peças de um mosaico maior. Esses textos, alinhados em tom e conteúdo, validam a narrativa principal, fornecendo camadas de legitimação que convergem em direção à mesma solução política desejada por determinados centros de poder.

Do ponto de vista estratégico, lidamos com um movimento que lembra uma jogada de xadrez bem coordenada: peões, bispos e torres da opinião pública avançam para abrir espaço a um lance decisivo. A tectônica de poder no Oriente Médio é redesenhada tanto pelas ações militares quanto pelos alicerces frágeis da diplomacia pública. Reconhecer essa dinâmica exige olhar além do espetáculo televisivo e interrogá-lo à luz da história, da composição de interesses e das omissões.

Enquanto a opinião pública absorve rostos e narrativas prontas, é obrigação do analista diplomático mapear a arquitetura por trás das imagens. Somente assim se pode distinguir entre liderança autêntica e construção instrumental — entre alternativa política e produto de propaganda. O perigo, em última instância, é que uma narrativa bem construída troque o debate sobre soberania e autodeterminação por um roteiro que legitima intervenções externas sob o verniz da democratização.

Em termos práticos, a leitura crítica destes movimentos — das entrevistas de Pahlavi às colunas favoráveis — é essencial para compreender o próximo capítulo do conflito: não apenas onde as bombas cairão, mas como será celebrado e justificado o redirecionamento de poder no tabuleiro regional.