Quanto custa limpar a imagem de Israel? A conta de US$ 730 milhões para ocultar o que acontece em Gaza
Análise de Marco Severini sobre os quase US$ 730 milhões destinados por Israel à hasbara e suas implicações geopolíticas e morais.
RESUMO ✦
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Quanto custa limpar a imagem de Israel? A conta de US$ 730 milhões para ocultar o que acontece em Gaza
Por Marco Severini
Em termos de geopolítica e de arquitetura da persuasão, o anúncio de que Israel destinou quase US$ 730 milhões à sua campanha de imagem é um movimento que exige leitura cuidadosa, quase forense. Não se trata apenas de números: é um sinal — um movimento no tabuleiro — que revela prioridades e calcula riscos políticos. Esses recursos irão para a velha arte da hasbara, a máquina estatal de narrativa que, historicamente, transforma decisões militares e políticas em enquadramentos aceitáveis.
Convém dizer com clareza: a soma deve ser lida à luz da tragédia humana que se desenrola em Gaza. As ruínas, as fossas comuns, os membros amputados, os recém-nascidos mortos por fome, médicos torturados e jornalistas mortos não são meras imagens para serem geridas — são evidências que moldam percepções e alimentam um debate global sobre responsabilidade. Ainda assim, a lógica do investimento é precisamente essa: transformar a realidade em problema de percepção.
Em termos estratégicos, a operação perseguida por Tel Aviv visa dois objetivos principais. O primeiro é mitigar o chamado "dano reputacional": como administrar o alicerce frágil da legitimidade internacional quando as imagens excedem os comunicados oficiais. O segundo é reconquistar corações e mentes, em particular entre as novas gerações universitárias dos Estados Unidos, cujo apoio tem se mostrado muito sensível às imagens e aos testemunhos que fogem às narrativas tradicionais.
Parte do esforço incluirá o financiamento de campanhas digitais, consultorias de reputação, influenciadores e também tecnologias de moderação — inclusive a utilização de enxames de bots para diluir críticas e classificar vozes dissidentes como antissemitas. É a tentativa de criar um fosso entre o olhar público e a elaboração crítica do que se vê: uma distância gerida por dinheiro e algoritmos.
A hasbara não é novidade; nasce de uma longa tradição colonial de controlar o relato. A ideia implícita é perturbadora na sua simplicidade: o sofrimento do outro é tolerável, contanto que o relato final permaneça sob controle do Estado que executa as ações. Quando se paga para administrar o vocabulário do conflito — "autodefesa", "danos colaterais", "escudos humanos" — torna-se claro que se trata de uma gestão do pós-fato.
Historicamente, esse repertório funcionou. Mas o cenário atual revela fissuras: depois de, segundo relatos, centenas de milhares de mortos, sete frentes de conflito simultâneas, e uma crise energética global que altera prioridades, as imagens de Gaza passaram a alcançar as timelines antes que as salas de imprensa conseguissem transformar os eventos em interpretações confortáveis. Pais reconhecem os filhos pelos trajes; sobreviventes filmam a própria ruína; médicos operam sem anestesia. Essas imagens obrigam uma revisão da arquitetura narrativa.
O custo elevado — quase US$ 730 milhões — é duplamente revelador. Mostra que a realidade está pressionando; e que a propaganda, para continuar eficaz, precisa de financiamento massivo. Quando um Estado tem de pagar tanto para gerir sua imagem, a pergunta que fica é estratégica: o que isso diz sobre a força do seu argumento moral no campo internacional? É um movimento defensivo, um gesto para manter linhas de apoio, mas também um reconhecimento implícito de perda de terreno no debate global.
Do ponto de vista de quem observa o tabuleiro internacional, trata-se de um redesenho sutil das fronteiras da opinião pública — uma tectônica de poder que tenta reposicionar um ator sob pressão. A consequência prática é um aperfeiçoamento técnico da narrativa: estratégias digitais, diplomacia pública e lobby. A consequência mais profunda, e mais perigosa, é o alicerce moral que se fragiliza quando o discurso precisa de altos investimentos para continuar crível.
Como analista, insisto que a resposta global não pode ficar só no campo da verificação de narrativas. A estabilidade internacional depende de instituições capazes de transformar evidências em responsabilização, e não apenas em disputa semântica. Sem esse enfoque, arriscamo-nos a ver o desenho de um novo mapa: não um redesenho territorial visível, mas um redesenho de fronteiras invisíveis da legitimidade.
Em suma: há um preço explícito para lavar a imagem — quase US$ 730 milhões — e um preço implícito para a ordem internacional quando a narrativa substitui a responsabilização. No momento em que as imagens se tornam indomáveis, a diplomacia se vê obrigada a uma resposta que é, ao mesmo tempo, técnica e existencial.