A queda simbólica dos EUA: o ataque de Trump a Papa Leão XIV e o esvaziamento do mito americano
O ataque de Trump a Papa Leão XIV revela a crise espiritual e a decadência do mito americano, com riscos geopolíticos e perda de soft power.
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A queda simbólica dos EUA: o ataque de Trump a Papa Leão XIV e o esvaziamento do mito americano
Por Marco Severini — A recente investida verbal de Donald Trump contra Papa Leão XIV, que apenas reafirmou um apelo histórico pela paz, não é um episódio isolado: trata-se de um sintoma evidente de uma crise mais profunda que atravessa a alma da potência estadunidense. Em termos estratégicos, assistimos a um movimento decisivo no tabuleiro que expõe alicerces frágeis da diplomacia americana e desnuda um projeto de poder em descompasso com seus próprios fundamentos morais.
O que está em jogo é, antes de tudo, espiritual, cultural e moral — e só depois político, militar ou econômico. A troca de adjetivos e o insulto dirigido à maior autoridade espiritual do mundo revelam a incapacidade de sustentar um discurso convincente sobre valores. Quando os Estados Unidos deixam de gerar um ideal capaz de agregar e inspirar, resta apenas o uso bruto da força e a tentação de instrumentalizar crenças para fins geopolíticos.
Há uma memória histórica pertinente: nos anos 1990, quando George W. Bush conduzia políticas distintas, o apelo à paz de João Paulo II recebeu tratamento diverso. Hoje, o auto-boicote político e simbólico expõe a erosão de uma narrativa que antes se apresentava como mito fundador. O projeto de fundir elementos do Cristianismo com nacionalismo e formas apocalípticas do fundamentalismo protestante — promovido por setores de influência e figuras como Peter Thiel — tentou construir um novo cimento ideológico para a hegemonia, mas falhou em gerar substância ética.
Esta erosão tem consequências tangíveis: a perda de soft power, a desaceleração do fascínio pelo mito espacial — exemplificada pela esquecida operação Artemis — e a crescente desconfiança internacional sobre a autêntica motivação dos discursos democráticos exportados. A retórica liberal que outrora legitimou a ação internacional americana foi reduzida a mera fachada, uma cobertura retórica para uma elite cada vez mais autocentrada e com tendência autocrática.
Do ponto de vista realista, o poder não se sustenta apenas por demonstrações de força; precisa de um corpo de ideias, valores compartilhados e coesão social — bens que hoje faltam aos EUA. A implosão simbólica da superpotência não beneficia automaticamente seus rivais; cria um vácuo instável, um redesenho de fronteiras invisíveis na tectônica de poder global que pode gerar rupturas imprevisíveis.
Em suma, o insulto a Papa Leão XIV não é apenas uma indiscrição presidencial: é um espelho que reflete a perda de compostura e de autoridade moral de uma nação que já foi farol de um ideal. A partir deste episódio, todas as máscaras do chamado fundamentalismo americanista parecem cair, deixando à vista a aridez de um projeto que apostou na devoção instrumentalizada e perdeu, ao fim, a capacidade de sonhar.
Marco Severini é analista sênior em geopolítica e estratégia internacional da Espresso Italia.