França: Eurodeputada Rima Hassan vai a julgamento por suposta apologia ao terrorismo

Eurodeputada Rima Hassan vai a julgamento em Paris por postagem sobre Kozo Okamoto; caso coloca em xeque liberdade de expressão e imunidade parlamentar.

França: Eurodeputada Rima Hassan vai a julgamento por suposta apologia ao terrorismo

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França: Eurodeputada Rima Hassan vai a julgamento por suposta apologia ao terrorismo

Rima Hassan, eurodeputada eleita pelo movimento La France Insoumise, comparecerá na próxima terça-feira a um tribunal em Paris acusada de apologia do terrorismo por um post nas redes sociais que mencionava o autor de um atentado em Israel. O caso lança uma sombra sobre o delicado equilíbrio entre controle judicial e liberdade de expressão, em um momento de forte tensão política entre vozes pró-Palestina e instituições estatais.

A parlamentar de 34 anos, conhecida por sua militância pró-Palestina, foi eleita ao Parlamento Europeu em 2024, em uma campanha marcada pelos ataques de 7 de outubro e pela intensificação da ofensiva israelense na Faixa de Gaza. A acusação concentra-se em um tweet, publicado no final de março e depois apagado, em que Hassan citava declarações atribuídas a Kozo Okamoto, ex-integrante do Exército Vermelho Japonês (ARJ) e um dos autores do atentado de 30 de maio de 1972 no aeroporto de Tel Aviv, reivindicado pelo Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP) e que deixou 26 mortos.

No conteúdo apontado pela acusação, Hassan reproduzia a frase: “Kozo Okamoto: Dediquei a minha juventude à causa palestina. Enquanto houver opressão, a resistência não será apenas um direito, mas um dever.” O post foi denunciado inicialmente pelo Ministério do Interior francês e, posteriormente, por organizações como a Organização Judaica Europeia (EJO) e a LICRA (Liga Internacional contra o Racismo e o Antissemitismo).

Em nota, o ministério considerou que “era natural apresentar uma queixa” e julgou o conteúdo do tweet “grave”, afirmando que “nada deve ficar impune”. Do outro lado, o advogado de Hassan, Vincent Brengarth, denuncia a ação judicial como uma tentativa de “criminalizar uma voz pró-Palestina apenas por ser forte e disruptiva” e antecipa que o julgamento terá “grande importância do ponto de vista da liberdade de expressão”.

A parlamentar publicou hoje, na plataforma X, uma carta aberta de apoio à qual, segundo ela, aderiram “mais de 210 personalidades de destaque”, entre as quais a laureada com o Nobel Annie Ernaux, a ex-ministra Christiane Taubira, o cantor Benjamin Biolay, o cineasta Xavier Dolan e a escritora Virginie Despentes. A iniciativa visa construir uma cortina de legitimidade pública em torno da sua defesa e transformá-la em símbolo de um debate maior sobre repressão política.

A convocação e a detenção de Rima Hassan, ocorridas em 2 de abril, tiveram repercussão política significativa. Seu advogado qualificou a prisão como “completamente ilegal”, alegando um suposto abuso de procedimento por parte da procuradoria com o objetivo de contornar sua imunidade parlamentar. Vazar notícias sobre a suposta presença de drogas sintéticas em sua bolsa agravou o episódio; entretanto, investigações posteriores refutaram a versão sobre posse de entorpecentes.

Hassan registrou uma queixa no início de abril por violação de confidencialidade na investigação e recorreu ao Provedor de Justiça para denunciar “graves violações éticas” no tratamento do caso. O processo, mais do que uma disputa judicial, desenha um movimento decisivo no tabuleiro político: a tectônica de poder entre o aparelho do Estado e vozes dissidentes que reavaliam os alicerces da diplomacia e da esfera pública.

Em síntese, o julgamento em Paris não é apenas sobre uma publicação apagada: é um lance estratégico numa partida mais ampla, que envolve memória histórica, legislação antiterrorismo e os limites da crítica política em tempos de conflito. O resultado terá repercussões sobre como se define, juridicamente, a fronteira entre a apologia e a expressão política num cenário europeu já tensionado.