Rússia não está isolada: dos BRICS ao tabuleiro eurasiático, Moscou mantém papel central apesar das sanções
Apesar das sanções, a Rússia amplia laços com BRICS e no tabuleiro eurasiático, mantendo papel central na geopolítica e no controle de rotas estratégicas.
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Rússia não está isolada: dos BRICS ao tabuleiro eurasiático, Moscou mantém papel central apesar das sanções
Por Marco Severini
Desde o início do conflito, parte consistente da narrativa ocidental insistiu na ideia de um isolamento irreversível da Rússia. As medidas punitivas, a cesura com boa parte da Europa e o apoio ocidental a Kiev teriam, em tese, reduzido o peso internacional de Moscou. A realidade dos últimos meses, contudo, revela uma recomposição mais complexa do que um simples ostracismo: longe de desaparecer do mapa diplomático, a Rússia reposicionou-se no tabuleiro global, aprofundando laços com o Sul Global e recalibrando sua presença eurasiática.
Do mito do isolamento à recomposição de alianças
É imprescindível distinguir perda de influência em determinados espaços — notadamente junto a capitais europeias — da erosão completa da capacidade de agir internacionalmente. Enquanto a relação política com a União Europeia enfraqueceu, Moscou reforçou interlocuções estratégicas com atores dos BRICS e com parceiros regionais na Ásia, Oriente Médio e África. Esse movimento tem a ver menos com um retorno a velhas esferas de influência e mais com um redesenho das fronteiras invisíveis da diplomacia: novas rotas comerciais, mecanismos de financiamento alternativos e acordos bilaterais que contornam, em parte, os constrangimentos impostos pelas sanções.
O espaço da negociação e o campo de batalha
As recentes observações do general Marco Bertolini descrevem com acuidade o momento militar: tanto Moscou quanto Kiev parecem crer que a paz só será concebível mediante um desgaste decisivo do adversário. No terreno, essa convicção traduz-se em ofensivas, contra-ofensivas e operações de longo alcance, com a Ucrânia investindo em ataques por drones e incursões profundas, enquanto as forças russas mantêm iniciativa em vários trechos da frente terrestre. Nesse xadrez estratégico, as casas para mediação política encurtam-se: a pressão sobre as peças adversárias prevalece sobre a vontade de negociar.
A dimensão naval e o controle das rotas
Nos últimos meses a guerra ganhou contornos cada vez mais marítimos. Os ataques a infraestrutura portuária, embarcações mercantis e terminais energéticos demonstram que o controle dos corredores do Mar Negro e do Mar de Azov tornou-se tão estratégico quanto a posse do solo. As rotas por onde transitam grãos, fertilizantes e hidrocarbonetos transformaram-se em alvos e em alicerces da economia de guerra. Um eventual alargamento das hostilidades para os nós energéticos regionais teria repercussões diretas nos mercados internacionais e reordenaria, em curto prazo, cadeias de abastecimento essenciais.
Kiev, dependência e reconstrução
No plano econômico e institucional a Ucrânia permanece fortemente dependente do apoio financeiro e militar ocidental. Esses aportes mantêm o funcionamento do Estado — pagamento de pensões, salários públicos, despesas militares e uma primeira fase de reconstrução de infraestruturas. Permanece, porém, um debate legítimo sobre os efeitos de médio e longo prazo dessa dependência: quem financiará e com que condicionantes a reconstrução? Que presença terão investidores ocidentais ou parceiros alternativos no pós-guerra? São perguntas que exigem desenho político e vetores de estabilidade.
BRICS, Eurasia e a tectônica de poder
O alargamento e a crescente relevância dos BRICS, bem como iniciativas de integração e cooperação eurasiática, sinalizam que o eixo de influência está em transformação. Moscou não reapareceu no palco internacional como um ator isolado, mas como um protagonista capaz de projetar poder e negociar em múltiplas frentes: comercial, energética e política. Esse reposicionamento não anula as limitações impostas pelas sanções, mas cria canais e alternativas que alteram a arquitetura clássica das relações internacionais — um redesenho sutil no mapa da ordem global.
Conclusão: um movimento decisivo no tabuleiro
Convém, por fim, evitar análises binárias. A Rússia sofre custos elevados e enfrenta restrições sérias; contudo, a noção de um completo isolamento não resiste a um exame panorâmico. Moscou, ao consolidar laços com os BRICS e ao disputar a influência na Eurásia e nos corredores energéticos, assegura-se um papel central na tectônica do poder contemporâneo. Como em uma partida de xadrez bem jogada, a aparente retirada em um flanco pode ser, na verdade, um reposicionamento calculado para garantir futuro movimento decisivo.