Rússia rejeita congelamento do conflito com a Ucrânia: 'EUA não são mediadores imparciais', diz Galuzin

Rússia diz não aceitar congelamento do conflito na Ucrânia sem resolver causas profundas; Galuzin acusa EUA de parcialidade e relata ataques com drones.

Rússia rejeita congelamento do conflito com a Ucrânia: 'EUA não são mediadores imparciais', diz Galuzin

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Rússia rejeita congelamento do conflito com a Ucrânia: 'EUA não são mediadores imparciais', diz Galuzin

Por Marco Severini — Em nova demonstração da tensão que mantém o tabuleiro euro-asiático em constante movimento, a Rússia reafirmou que não concordará com um congelamento das operações militares na Ucrânia enquanto não forem enfrentadas as «causas profundas» do conflito. A posição foi explícita nesta segunda-feira pelo vice-ministro das Relações Exteriores, Mikhail Galuzin, em entrevista à agência Tass.

Na leitura oficial de Moscou, citada por Galuzin, a proposta de interromper o confronto sem um tratamento das raízes políticas e estratégicas do impasse seria apenas um paliativo: «Como já afirmou repetidamente o presidente Vladimir Putin, nenhum ‘congelamento’ é possível sem abordar as causas profundas desta crise», declarou o diplomata. A frase é sintomática de uma visão geopolítica que busca reenquadrar o conflito como problema da ordem e da arquitetura de segurança regional — não meramente um cessar-fogo temporário.

Com voz medida, porém firme, Galuzin também voltou a criticar o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, acusando-o de «perder o contato com a realidade» e de adotar uma postura destinada a «intensificar o conflito». A tônica russa recai sobre a ideia de que atos de sabotagem e ataques contra infraestruturas energéticas no território russo — qualificados por Moscou como «terroristas» — justificariam uma resposta mais ampla da comunidade internacional.

No plano das acusações diretas, o representante do Kremlin apontou os Estados Unidos como parte do problema: segundo ele, a contínua entrega de armamentos americanos ao «regime de Kiev», bem como o provimento de inteligência e outros tipos de apoio, contradizem qualquer retórica de mediação imparcial. «Washington não é um mediador imparcial», disse Galuzin, acrescentando que a Rússia tem levado essas questões «em nossos contatos em curso com Washington».

O contraste entre a retórica diplomática e a realidade dos ataques foi nítido nas últimas horas. Autoridades russas informaram que instalações industriais e civis em Nizhnekamsk, na região do Tatarstan, foram atingidas por um ataque com drones na manhã de hoje, causando pelo menos 12 vítimas e 39 feridos, segundo o serviço de imprensa do governador local, Rustam Minnikhanov. As autoridades locais decretaram luto regional. Canais ucranianos no Telegram, por sua vez, afirmaram que uma refinaria de petróleo teria sido alvo.

O Ministério da Defesa russo afirmou também que, no último ataque, as defesas aéreas destruíram e interceptaram 456 drones em múltiplas regiões — incluindo Briansk, Kursk, Kaluga, Tula, Belgorod, Orel, Voronej, Rostov, Penza, Ulianovsk, Saratov, Orenburg e Samara, além da região de Moscou, Krasnodar, da República do Tatarstan e da Crimeia anexada.

Do lado ucraniano, a região de Sumy voltou a registrar vítimas após bombardeio noturno atribuído às forças russas, com uso de cinco bombas guiadas a laser. O chefe da administração militar de Sumy, Oleg Grigorov, reportou ao menos 14 feridos. O prefeito Artem Kobzar havia mencionado anteriormente cinco vítimas em ataques contra infraestruturas civis em pontos de dois bairros; a maioria das lesões descritas foi de caráter leve.

Na perspectiva de análise estratégica, a declaração de Galuzin e os eventos de campo compõem um movimento decisivo no tabuleiro: enquanto Moscou reforça a narrativa de que um cessar-fogo sem garantias estruturais equivaleria a uma capitulação diplomática, os incidentes transfronteiriços e o fluxo contínuo de apoio ocidental a Kiev transformam o conflito num redemoinho de influências onde cada jogada procura moldar os alicerces da futura ordem regional. Em termos práticos, o caminho para uma redução das hostilidades passa inevitavelmente por negociações com atores que as partes reconheçam como capazes de oferecer garantias — e aí reside o núcleo do impasse entre Moscou e Washington.

Como analista, enxergo nessa sequência não apenas confrontos táticos, mas uma tentativa de redesenhar fronteiras invisíveis de influência. A estabilidade futura dependerá de quão rapidamente os atores — dentro e fora da região — aceitarem adaptar seu jogo às rédeas da diplomacia realista, ao invés das peças simbólicas de uma retórica que não produz resultados tangíveis.