Sanções dividem a UE: o abandono do gás russo aumentou pobreza e desigualdade na Europa

Sanções e abandono do gás russo aumentaram preços e desigualdade na UE; análises mostram vencedores, perdedores e riscos à coesão europeia.

Sanções dividem a UE: o abandono do gás russo aumentou pobreza e desigualdade na Europa

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Sanções dividem a UE: o abandono do gás russo aumentou pobreza e desigualdade na Europa

Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha fraturas invisíveis no mapa político e energético europeu, as recentes políticas da União Europeia mostram, com clareza quase cartográfica, vencedores e vencidos. A onda de calor extrema que já ceifou cerca de 3.700 vidas este verão expôs não apenas falhas operacionais, mas também os alicerces frágeis da diplomacia energética do continente.

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Os hospitais colapsados e a falta de ventilação adequada contrastam com uma memória institucional curta: há menos de um ano, estimativas apontavam até 15.000 mortes atribuíveis a uma crise térmica semelhante. Entre essas catástrofes humanitárias e as previsões para o inverno, o que se revela é uma tectônica de poder na qual as decisões sobre sanções e abastecimento deslocam populações e indústrias.

No cerne da crise energética está a transição forçada da Europa para o GNL — combustível intrinsecamente mais volátil. Enquanto o gás por gasoduto flui com previsibilidade, o transporte por navios fica à mercê da geopolítica, do clima e até do humor dos atores estatais. Em 2021, cerca de 20% do gás importado pela União vinha em forma liquefeita; hoje esse percentual aproxima-se de 45%. Essa alteração estrutural não é neutra.

Os benefícios dessa nova configuração ficam concentrados em poucos portos: França, Espanha, Bélgica e Países Baixos, com robustas capacidades de regaseificação, transformaram-se — por geografia e infraestrutura — em hubs privilegiados. Em contrapartida, países que dependem de gasodutos viram-se encurralados quando a União aperta o cerco ao gás russo. As sanções distorceram mercados, elevaram custos e introduziram uma dimensão de desigualdade entre cidadãos europeus, determinada por fronteiras, terminais e acordos bilaterais.

Exceções políticas mostram as fissuras: Hungria e Eslováquia negociaram com Bruxelas o direito de continuar a importar pipeline russo legalmente — um privilégio que resulta em preços domésticos muito mais baixos. Entre os demais, circulam combustíveis por canais mais caros e por vezes semi-legais, numa economia paralela que corrói regras e solidariedade intracomunitária.

Em termos práticos, os indicadores são implacáveis: níveis de armazenamento chegaram a cair para cerca de 20% da capacidade em alguns depósitos, enquanto o terminal alemão de Mukran, essencial para a regaseificação do GNL, ficou vazio por semanas ao congelar atividades de descarga. Na primavera, embaraços no Estreito de Hormuz — consequência do agravamento entre EUA e Irã — também restringiram a chegada de metaneiros.

O resultado é previsível e cruel: indústrias que competem em mercados globais pagam energia mais cara, famílias enfrentam risco crescente de pobreza energética e a coesão social sofre erosão. Em termos estratégicos, a União Europeia perdeu, ao menos temporariamente, capacidade de projetar uma política energética integrada e resiliente.

Do ponto de vista de estratégia e Estado, a lição é clara: decisões que se assemelham a um lance de xadrez — aparentemente corretas do ponto de vista moral ou geopolítico — precisam ser calculadas com visão de tabuleiro inteiro. Sem isso, o movimento decisivo produz ganhos assimétricos e um redimensionamento do poder interno que fragiliza a estabilidade do grupo.

Como diplomata da informação, recomendo a leitura pragmática dos fatos: reforço de reservas estratégicas, investimentos em infraestrutura de regaseificação e interconexões, mecanismos de compensação social para os mais afetados, e, sobretudo, uma negociação energética europeia que reconheça a realidade logística e geográfica. A geopolítica do gás não se resolve apenas com sanções; resolve-se com aritmética do fornecimento e com a arquitetura institucional capaz de lidar com as consequências.

Em suma, a atual política de sanções configurou um movimento que, sem um contra-movimento de coordenação e solidariedade, tornou a Europa mais pobre e menos equitativa. É tempo de recompor o tabuleiro com seriedade estratégica, antes que os custos humanos e industriais se tornem permanentes.

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