Sucessão na ONU: quatro candidatos em disputa enquanto crises globais expõem impotência institucional

Quatro candidatos disputam a sucessão de Guterres na ONU enquanto crises globais testam a credibilidade da instituição.

Sucessão na ONU: quatro candidatos em disputa enquanto crises globais expõem impotência institucional

RESUMO ✦

Sem tempo? A Lili IA resume para você

Gerando resumo com IA...

Sucessão na ONU: quatro candidatos em disputa enquanto crises globais expõem impotência institucional

Por Marco Severini — Em um momento em que conflitos, crises humanitárias e desafios nucleares redesenham linhas de tensão ao redor do globo, as Nações Unidas movem-se num tabuleiro onde as jogadas são lentas e os alicerces, frágeis. O mandato de Antonio Guterres termina ao final do ano e já se desenha uma corrida séria para a escolha do próximo secretário-geral. A disputa concentra-se em quatro nomes: Michelle Bachelet, Rafael Mariano Grossi, Rebeca Grynspan e Macky Sall.

A mecânica de seleção segue a arquitetura institucional conhecida: depois das audições realizadas na Assembleia Geral, com a presença dos 193 Estados-membros e representantes da sociedade civil, o processo migra para os votos informais e secretos do Conselho de Segurança. É ali, no núcleo que contém os cinco membros permanentes — Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França — que pode ser exercido o poder do veto, peça-chave capaz de bloquear candidaturas e moldar a geopolítica da organização.

Entre as preocupações que ecoam nas salas das missões diplomáticas, sobressai a demanda por maior representação feminina. Nunca uma mulher presidiu a Secretaria-Geral, e essa lacuna tornou-se fator central no debate sobre legitimidade e renovação institucional. Ao mesmo tempo, a ONU sofre acusações antigas de inércia, impotência e bloqueios por vetos mútuos, num contexto em que a necessidade de respostas rápidas à crise é cada vez mais evidente.

Michelle Bachelet, 74 anos, ex-presidente do Chile e ex-Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos (2018–2022), traz um perfil profundamente político e multilateral. Sua trajetória confere autoridade em direitos humanos, porém também gera polarização nos eixos Washington–Pequim, em razão de críticas que infligiu à China. A perda do apoio do atual governo chileno reduz sua margem doméstica, mas ela conserva apoios relevantes na região, incluindo Brasil e México.

Rafael Mariano Grossi, 65 anos, argentino, oferece uma candidatura técnica, moldada pela experiência na Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Sua reputação em crises nucleares — da Ucrânia ao Irã — o posiciona como um gestor de segurança capaz de lidar com riscos de alto impacto. Observadores diplomáticos destacam que seu perfil tem apelo transversal no Conselho de Segurança; até mesmo a Rússia reconheceu sua habilidade em momentos críticos nas usinas ucranianas.

Rebeca Grynspan, 70 anos, economista e atual secretária-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), tem no desenvolvimento e na redução das desigualdades o eixo de sua narrativa. Ex-vice-presidente da Costa Rica, Grynspan é amplamente respeitada no campo da cooperação internacional. Sua condição de mulher e representante da América Latina a torna competitiva face a Bachelet, podendo captar votos que buscam renovação e maior equilíbrio regional.

Macky Sall, 64 anos, ex-presidente do Senegal, apresenta um perfil político com forte ancoragem africana. No entanto, a candidatura enfrenta obstáculos: a ausência de um respaldo continental homogêneo e acusações relativas a violações de direitos humanos comprometem sua trajetória. O continente africano, que reivindica maior voz na governança multilateral, ainda não construiu uma frente sólida em torno de Sall.

O que está em jogo vai além da pessoa que ocupará o apartamento do secretário-geral; trata-se da credibilidade da instituição e da capacidade de gerir choques sistêmicos. A escolha oscila entre um gestor técnico de crises, um líder político com peso em direitos humanos ou um agente de desenvolvimento com apelo latino-americano. Cada opção desenha, em escala, movimentos estratégicos no tabuleiro global: quem for escolhido precisará negociar com potências em competição e recompor os alicerces frágeis da diplomacia multilateral.

Ao observador cuidadoso, a corrida revela a tectônica de poder que atravessa a governança internacional. O equilíbrio entre legitimidade, eficácia técnica e aceitabilidade política será o critério definitivo do Conselho de Segurança, onde um veto pode remodelar o resultado final. Resta à Assembleia Geral confirmar a recomendação que emergir desse jogo diplomático, numa sequência que exigirá do próximo secretário-geral tanto autoridade moral quanto habilidade de xadrez estratégico.

Em suma, a sucessão é uma partida de alto risco: tanto para a ONU, cuja autoridade necessita de reforço, quanto para o sistema internacional, que aguarda um movimento decisivo que reestabeleça confiança e iniciativa multilateral.