Sudão: Mais de 400 mil deslocados no Kordofan setentrional enfrentam grave insegurança alimentar, alerta ONU

ONU: quase 400 mil deslocados no Kordofan setentrional enfrentam grave insegurança alimentar; El Obeid sob tensão e risco de cerco prolongado.

Sudão: Mais de 400 mil deslocados no Kordofan setentrional enfrentam grave insegurança alimentar, alerta ONU

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Sudão: Mais de 400 mil deslocados no Kordofan setentrional enfrentam grave insegurança alimentar, alerta ONU

Por Marco Severini — A situação humanitária no Kordofan setentrional alcança um ponto crítico: quase 400.000 deslocados nos distritos de Sheikan, Bara e Gharb Bara estão em condição de grave insegurança alimentar, segundo avaliação das Nações Unidas. A advertência foi apresentada no contexto do agravamento da guerra civil entre as Forças Armadas Sudanesas (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF), que tem ampliado a catástrofe humanitária em diversas frentes do país.

Em briefing oficial, o porta-voz da ONU, Stéphane Dujarric, citou dados do Programa Alimentar Mundial que apontam deterioração diária das reservas e do acesso a alimentos em El Obeid, a capital regional. O fluxo de combates e os deslocamentos forçados em direção à cidade sobrecarregaram infraestruturas locais, deixando centenas de milhares sem alimentação adequada. El Obeid abriga cerca de 750.000 habitantes, e a chegada maciça de deslocados tensiona os alicerces já frágeis da cidade.

Relatos do Sudan Tribune indicam que as RSF teriam posto fora de uso fontes hídricas primárias de El Obeid, controlando-as diretamente ou por meio de ataques com drones, provocando uma escassez de água estimada em 70%. Em termos estratégicos, trata-se de um movimento para desgastar a capacidade da cidade de resistir — um gesto que redesenha fronteiras de acesso a recursos essenciais no tabuleiro regional.

Enquanto isso, as SAF buscam consolidar defesas em torno de El Obeid: militares instalaram ao menos 14 postos de bloqueio e construíram uma rede de aterros e trincheiras defensivas que totaliza cerca de 51 quilômetros, preparando-se para um possível cerco prolongado das RSF. A preparação militar desenha um cenário de estagnação tática, com consequências humanitárias previsíveis para civis encurralados.

O agravamento no Kordofan setentrional é reflexo de uma crise mais ampla no oeste do Sudão. No Darfur central, organizações humanitárias identificaram a assistência alimentar como necessidade prioritária para aproximadamente 236.000 deslocados distribuídos em cinco acampamentos na área de Gharb Jebel Marra. No Darfur meridional, combates recentes forçaram quase 4.000 famílias a abandonar seus lares, gerando necessidade urgente de abrigos e bens de primeira necessidade.

Relatórios independentes, como o do Reckoning Project, apontam para um padrão preocupante: ataques aéreos e a tática do “double tap” — um primeiro bombardeio seguido por um segundo no mesmo ponto — que atingem deliberadamente civis e equipes de socorro. Tais práticas agravam o colapso dos corredores humanitários e violam normas fundamentais de proteção de não combatentes.

Durante o briefing, Dujarric reiterou a exigência de proteção a civis e infraestrutura civil e apelou por um aumento do apoio financeiro internacional. O plano de resposta humanitária das Nações Unidas necessita de fundos adicionais para ampliar assistência alimentar, água, abrigo e cuidados médicos às populações mais afetadas.

Como analista, observo que estamos diante de um movimento estratégico de desgaste: fortificações, controle de recursos e ataques que visam não apenas posições militares, mas também a sustentação de comunidades inteiras. A estabilidade regional depende não só de cessar-fogos locais, mas de um redesenho das linhas de apoio humanitário e diplomático — um ajuste de tabuleiro que requer compromisso sustentado por parte das potências e dos blocos regionais.