Sudão: guerra põe em risco as pirâmides de Meroé — tutela da UNESCO suspensa entre desmoronamentos e degradação

Guerra no Sudão paralisa conservação das pirâmides de Meroé; risco de colapso, erosão e perda de inscrições no sítio UNESCO.

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Sudão: guerra põe em risco as pirâmides de Meroé — tutela da UNESCO suspensa entre desmoronamentos e degradação

Por Marco Severini — Em um movimento que altera silenciosamente o tabuleiro da herança cultural africana, as pirâmides de Meroé, no Sudão, enfrentam uma ameaça combinada de conflito armado e abandono técnico. O confronto entre as Forças Armadas Sudanesas (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF) interrompeu por completo as atividades de preservação no sítio classificado pela UNESCO, deixando estruturas milenares expostas ao vento, à areia e ao crescimento descontrolado da vegetação.

Localizado a cerca de 200 km ao norte de Khartoum, o complexo de Meroé abriga mais de 200 pirâmides de faces inclinadas, erguidas entre aproximadamente 800 a.C. e 350 d.C. como tumbas dos reis do Reino de Cuxe. Essa paisagem monumental — um dos alicerces visíveis da arqueologia africana — sofre diretamente os efeitos da guerra civil que atravessa o país há mais de três anos, com consequências que já podem ser medidas em termos de perdas materiais e de memória histórica.

O arqueólogo Mahmoud Suleiman alertou, em entrevista à imprensa internacional, que o sítio corre risco de desastre e que não se podem excluir colapsos. Segundo Suleiman, a continuidade das hostilidades impossibilitou até mesmo intervenções técnicas básicas destinadas a estabilizar as ruínas mais frágeis. Sem a presença de equipes especializadas, o processo degradativo acelerou.

No terreno, testemunhos corroboram esse quadro. A guarda do sítio, Mustafa Ahmed, reportou que a areia trazida pelos ventos acumulou-se de forma massiva sobre as pirâmides e invadiu templos, enquanto a vegetação cresce sem controle entre os blocos. Essa dinâmica mecânica já provocou destacamentos de pedras. O inspetor de antiguidades Mohamed Mubarak acrescentou outro elemento decisivo: o sal das areias depositadas está atacando a pedra, corroendo superfícies e apagando inscrições antigas. Assim, o dano não é apenas estrutural, mas também epigráfico — um enfraquecimento progressivo dos traços que sustentam a narrativa do passado.

A combinação de fatores é crítica: o conflito armado, a mudança climática, a dispersão forçada da força de trabalho arqueológica sudanesa e a suspensão das missões internacionais produziram um rápido e significativo declínio no estado de conservação do sítio. O resultado é um espaço patrimonial deixado à própria sorte, onde a tectônica de poder em solo sudanês redefine, invisivelmente, as fronteiras da preservação cultural.

Do ponto de vista estratégico e simbólico, a perda potencial de Meroé teria efeitos amplos. Trata-se não apenas de inscrições e pedras, mas de um capítulo da história que sustenta relações identitárias e diplomáticas na região. A suspensão das operações de salvaguarda transforma o sítio em peça de um tabuleiro maior, onde a ausência de cuidados técnicos replica, em microescala, a erosão das instituições que podem proteger o patrimônio.

Enquanto a comunidade internacional monitora relatos e imagens, a urgência técnica permanece: acesso seguro de especialistas, reativação das equipes de conservação e mecanismos de proteção que possam funcionar mesmo em contexto instável. Sem essas jogadas coordenadas, corre-se o risco de assistir, em silêncio, ao desmoronamento progressivo de testemunhos materiais que resistiram por milênios.