Investigação do CSIC conclui: O tesouro de Leovigildo é um falso que redesenha Recópolis
Pesquisa do CSIC revela que o tesouro atribuído a Leovigildo é falso e põe em dúvida a identificação de Recópolis no Cerro de la Oliva.
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Investigação do CSIC conclui: O tesouro de Leovigildo é um falso que redesenha Recópolis
Por Marco Severini, Espresso Italia — Uma pesquisa recente do CSIC (Consejo Superior de Investigaciones Científicas) colocou em xeque um dos pilares da narrativa sobre os visigodos na Península Ibérica: o famoso tesouro atribuído ao rei Leovigildo (525–586 d.C.). O estudo, assinado pelo arqueólogo e historiador Fernando Arce Sainz e publicado no Boletín de Arqueología Medieval em 2025, aponta evidências de que as 90 moedas de ouro encontradas em 1945 por Juan Cabré foram provavelmente plantadas no local para sustentar a identificação do sítio como Recópolis.
O achado original ocorreu no Cerro de la Oliva, próximo a Zorita de los Canes, onde se ergue a igreja medieval de Nuestra Señora de la Oliva, datada do século XII. Segundo Arce Sainz, Cabré teria colocado as moedas exatamente nesse ponto — um contexto arquitetônico cronologicamente incompatível com a época de Leovigildo, ativo no século VI. Em termos práticos, há uma incongruência temporoestratigráfica: uma coleção monetária atribuída ao rei visigodo foi localizada em uma estrutura muito posterior, o que transforma o achado em um elemento intruso.
O relatório jornalístico publicado no jornal espanhol El País detalha que, em 1944, Francisco Layna Serrano, médico e cronista da província de Guadalajara, incumbiu Cabré de dirigir escavações no Cerro de la Oliva para demonstrar que o sítio correspondia à antiga Recópolis, fundada em homenagem a Recaredo. Um ano mais tarde, Layna Serrano escreveu a Julio Martínez Santaolalla — então autoridade máxima das escavações arqueológicas na Espanha — que, por motivações culturalistas e uma orientação germanófila naquele contexto intelectual, pressionava pela confirmação da origem germânica e visigótica do povo espanhol, orientando interpretações favoráveis à identificação de Recópolis no local.
Adicionalmente, já em 2008 o arqueólogo Manuel Castro havia alertado para a natureza plenamente medieval do batistério descoberto em 1946, apontando-o como construção do século XII que se apoiava em um espaço batismal visigodo mais antigo. Isso reforça a hipótese de que as moedas não poderiam pertencer a um batistério ariano do tempo de Leovigildo, contradizendo a narrativa clássica do achado.
A comunidade científica agora encara uma revisão crítica: não apenas se as moedas são autênticas, mas também se o Cerro de la Oliva conserva efetivamente os vestígios da cidade visigoda que se pretendia encontrar. Em termos geopolíticos da memória, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro da historiografia: ao remover uma peça que parecia consolidar uma versão canônica, abre-se espaço para reavaliar camadas arqueológicas, interpretações documentais e as motivações extra-científicas que moldaram escavações do século XX.
Como diplomata da informação, observo que esse episódio ilustra a fragilidade dos alicerces da reconstrução histórica quando interesses culturais, nacionalistas e pessoais interferem na metodologia. A arquitetura do sítio — um batistério medieval assentado sobre um espaço visigótico — exige prudência: a tectônica de poder que atravessou as práticas arqueológicas daquele período deixou marcas que hoje exigem uma leitura mais crítica e técnica.
Em suma, a investigação do CSIC não só desmente uma descoberta consagrada como também nos lembra que a escrita da história é um tabuleiro onde cada peça deve ser verificada antes de se declarar um xeque-mate. A trajetória futura do sítio e das interpretações sobre Recópolis dependerá de novos estudos estratigráficos, análises numismáticas e de uma postura científica que sepulte, com clareza, vestígios de fraudes ou de leituras interessadas.