Trump no Gabinete: Venezuela, Ucrânia, Gaza e o tabuleiro geopolítico em mutação

Marco Severini analisa a reunião de Gabinete de Trump: negociações sobre Venezuela, apelos a Putin, Gaza e o orçamento que ameaça um shutdown.

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Trump no Gabinete: Venezuela, Ucrânia, Gaza e o tabuleiro geopolítico em mutação

Por Marco Severini — Em uma sessão mais breve do que o habitual, o presidente Donald Trump conduziu ontem uma reunião de Gabinete de aproximadamente uma hora e vinte minutos, marcada por declarações diretas sobre frentes internacionais e por ausências que não passaram despercebidas. Entre os membros do Executivo que não foram chamados a falar estavam a secretária da Segurança Interna Kristi Noem, a procuradora-geral Pam Bondi, o secretário dos Transportes Sean Duffy e a secretária do Trabalho Lori Chavez-DeRemer, todos envolvidos recentemente em controvérsias públicas.

O encontro seguiu um roteiro que combinou gestão doméstica — incluindo esforços explícitos para evitar um novo shutdown — e movimentações de alto impacto na política externa. Do diálogo com a Rússia aos contactos com Caracas, o presidente desenhou um quadro onde interesses energéticos, segurança e migração compõem uma série de jogadas interdependentes no grande tabuleiro da ordem internacional.

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Trump comentou, com tom leve entre risos dos presentes, as críticas sobre ter supostamente adormecido em uma conferência de imprensa: “A última vez que tivemos uma conferência de imprensa, durou três horas. Alguns disseram: 'ele fechou os olhos'. Olhem, era simplesmente muito maçante. Mas eu não adormeci, apenas fechei os olhos”. A réplica foi sintomática: o controle narrativo é parte da estratégia.

Sobre a guerra na Ucrânia, o presidente afirmou ter pedido pessoalmente a Putin que evitasse bombardeios em Kiev e outras cidades por uma semana devido ao “frio recorde”. “Ele deu o ok e, deixem-me dizer, foi muito gentil da parte dele”, disse Trump, sublinhando uma abordagem de interlocução direta que busca desalojar os alicerces da diplomacia convencional.

Referindo-se ao conflito em Gaza, Trump afirmou que, contrariamente a previsões, “muitos disseram que o Hamas nunca deporia as armas. Parece, no entanto, que o farão”. A declaração insere-se numa leitura otimista, possivelmente buscando criar uma narrativa de resolução viável e de ganhos políticos para os mediadores envolvidos.

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Na dimensão latino-americana, o presidente anunciou que grandes companhias petrolíferas estão indo ao Venezuela para explorar e estabelecer operações, o que, segundo ele, traria “enorme riqueza ao Venezuela e aos Estados Unidos”. Após contato com a líder venezuelana Delcy Rodriguez — com quem disse manter relações “muito boas” — Trump ordenou a reabertura “de todo o espaço aéreo comercial” de Caracas, determinando ao secretário dos Transportes Sean Duffy que execute a medida “até hoje”. A medida foi apresentada como garante de segurança para cidadãos americanos e como catalisadora de interesses econômicos.

No plano interno e transatlântico, o presidente voltou-se contra a estratégia europeia sobre energia e migração: “A Europa precisa ficar mais inteligente. Entre imigração e energia, estão destruindo tudo; não é mais reconhecível. Devem se tornar mais inteligentes antes que seja tarde”. A advertência projeta um redesenho de fronteiras políticas invisíveis entre soberania, segurança energética e movimentos populacionais.

Por fim, nas questões monetárias e administrativas, Trump indicou que “na próxima semana anunciaremos o nome do novo governador da Fed”, descrevendo o escolhido como alguém que fará “um ótimo trabalho”. No Congresso, porém, a votação procedimental sobre o projeto de orçamento — indispensável para evitar um novo shutdown antes da meia-noite de sábado — foi bloqueada no Senado, deixando pendente uma potencial crise fiscal de curto prazo.

Em suma, a reunião revelou um presidente empenhado em coordenar peças sensíveis do tabuleiro internacional e doméstico: interlocuções bilaterais atípicas, incentivos econômicos em zonas tradicionalmente adversas e advertências a aliados e rivais. Cada movimento, na linguagem da arquitetura das relações exteriores, testa alicerces frágeis e redesenha linhas de influência — enquanto o relógio institucional sobre o orçamento segue correndo.

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