Vance e Teerã se enfrentam em Islamabad: negociações de 21 horas não selam acordo; Putin oferece mediação e Trump ameaça a China; carro de combate israelense atinge veículos da UNIFIL italianos
Vance e Teerã encerram 21 horas de negociações em Islamabad sem acordo; Putin oferece mediação, Trump ameaça a China e tanque israelense atinge veículos da UNIFIL italianos.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Vance e Teerã se enfrentam em Islamabad: negociações de 21 horas não selam acordo; Putin oferece mediação e Trump ameaça a China; carro de combate israelense atinge veículos da UNIFIL italianos
Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha temporariamente o tabuleiro diplomático do Oriente Médio, o vice-presidente norte-americano Vance encerrou em Islambad uma maratona de negociações de 21 horas com representantes do Irã, mediadas pelo Paquistão, sem conseguir converter o diálogo em um acordo. O encontro, marcado por discussões exaustivas entre sherpas e chefes de delegação, culminou em um face a face histórico entre Vance e o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Qalibaf — o primeiro desse nível desde 1979.
Do alto da escadaria do Air Force Two, Vance saudou as autoridades iranianas e, em tom de balanço estratégico, descreveu os debates como substanciais, mas infrutíferos: “Tivemos uma série de discussões substanciais com os iranianos — essa é a boa notícia. A má notícia é que não chegamos a um acordo.” Segundo o vice-presidente, os Estados Unidos apresentaram uma “proposta final e melhor” que exige, em seu núcleo, um compromisso explícito do Irã de não procurar uma arma nuclear nem meios acelerados para obtê-la.
A oferta norte-americana, mantida em grande parte em sigilo pelo próprio Vance, foi concebida como um movimento decisivo no tabuleiro, com o objetivo de blindar os alicerces da não proliferação. “Não entrarei em todos os detalhes porque não quero negociar em público após 21 horas em privado”, afirmou, ressaltando que o cerne da proposta norte-americana é um compromisso verificável de abandonar esforços nucleares militares.
A reação de Teerã foi rápida e marcada por retórica diplomática firme nas redes. Esmaeil Baqaei, porta-voz do ministério das Relações Exteriores iraniano, ressaltou que “o sucesso do processo diplomático depende seriamente da boa vontade da outra parte” e do reconhecimento dos direitos e interesses legítimos do Irã. Em uma publicação no X, a emissora estatal IRIB afirmou que, apesar de negociações contínuas e intensas para proteger os interesses do povo iraniano, as exigências americanas — descritas como “irrealistas” — travaram o avanço do diálogo.
Teerã reafirmou que suas prioridades incluem o fim dos ataques ao Líbano e a revogação de sanções, ao mesmo tempo em que indicadores de segurança — como o papel dos Guardiões da Revolução — não permitem aceitar ingerências que ameacem corredores estratégicos, notadamente o estreito de Ormuz, palco de tensões geopolíticas regulares.
No mesmo compasso, o panorama internacional ganhou outras peças: o presidente russo Putin ofereceu-se como mediador no impasse, apresentando-se como um árbitro possível entre Teerã e Washington; já o ex-presidente Trump reacendeu pressões econômicas ao ameaçar novos daços contra a China, inserindo outra peça de peso no jogo de influências globais e potencialmente complicando realinhamentos estratégicos.
Enquanto os corredores de Islamabad devolviam-se ao silêncio tenso de quem calibra próximos lances, no sul do Líbano a tensão escalou de forma mais palpável: a força de paz da ONU, UNIFIL, denunciou que, em duas ocasiões naquele dia, seus veículos foram atingidos por blindados israelenses. Fontes informadas indicam que os veículos atingidos pertenciam ao contingente italiano da força, intensificando a delicada tectônica de poder entre atores locais e forças internacionais no terreno.
O saldo até agora é um impasse: negociações de alto nível que não desarmaram as suspeitas mútuas sobre a agenda nuclear iraniana; ofertas e contramoves diplomáticos que alteram a geometria das alianças; e incidentes de campo que lembram como a estabilidade permanece sobre alicerces frágeis. Em termos de estratégia internacional, assistimos a um jogo de múltiplas frentes — onde cada movimento público é parte de uma sequência pensada para preservar margem de manobra, evitar escaladas abertas e, eventualmente, forjar espaço para novos tabuleiros de negociação.
Até que surjam compromissos verificáveis e garantias concretas, as iniciativas de mediação — de Moscou a Islamabad — e as pressões econômicas externas — como as ameaças tarifárias de Washington contra Pequim — continuarão a moldar a cartografia das relações entre grandes potências e atores regionais. Este é um momento de alta diplomacia: peças dispostas, mobilidade restrita, e olhos do mundo atentos ao próximo movimento decisivo.