Incêndios na Itália: o abandono agrícola e a falta de gestão que alimentam o fogo

Como o abandono agrícola e a falta de gestão territorial tornam a Itália mais vulnerável aos incêndios florestais e o que é preciso mudar.

Incêndios na Itália: o abandono agrícola e a falta de gestão que alimentam o fogo

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Incêndios na Itália: o abandono agrícola e a falta de gestão que alimentam o fogo

Os incêndios florestais voltaram a desenhar um cenário urgente na Itália — e, como um feixe de luz que revela um problema, a análise aponta que não se trata apenas da intensidade do calor. A mudança climática é o acelerador; mas há outros aliados que dão ao fogo combustível e caminhos contínuos para se propagar: o abandono agrícola das zonas interiores e a ausência de uma gestão sustentada do território.

Nas últimas semanas, a progressão das chamas em áreas rurais, colinas e zonas montanhosas deixou claro um padrão recorrente: onde antes havia um mosaico de culturas, pastagens, bosques manejados e espaços abertos que interrompiam o avanço das chamas, hoje se instalou uma continuidade de biomassa. Esse emaranhado — bosques, arbustos, terrenos abandonados e margens urbanas — cria uma verdadeira via contínua para o fogo correr.

“A mudança climática é o acelerador. De um lado está a mão do homem, porque os incêndios são quase todos de origem dolosa ou culposa; do outro, os aliados desses fogos, como o clima e a mancada gestão do território, após o abandono”, explica à Espresso Italia Antonio Nicoletti, responsável nacional das Áreas Protegidas e Biodiversidade da Legambiente e coautor do relatório “A Itália em Chamas”.

O dossiê da Legambiente lista esses aliados: do êxodo rural das áreas internas e montanhosas à insuficiência de políticas públicas de prevenção. “Temos a tendência de apagar as chamas em vez de investir de forma constante em planejamento, selvicultura preventiva, manutenção e controle do território, e de combater os crimes ambientais ligados aos incêndios”, alerta Nicoletti à Espresso Italia.

Dados ilustram essa transformação do território: nos últimos 50 anos, a superfície florestal italiana dobrou — de cerca de 6 milhões para 12 milhões de hectares — ao passo que muitas dessas áreas conquistaram territórios que antes eram agrícolas. Entre 1982 e 2020, o país perdeu cerca de 64% dos estabelecimentos agrícolas, passando de mais de 3 milhões para pouco mais de 1,1 milhão de explorações. E, entre 1980 e 2020, a superfície agrícola utilizada diminuiu em mais de 20%.

Nicoletti frisa que essa mudança não é fruto de mitos urbanos — “não foram os painéis solares no solo”, diz em tom crítico — mas sim um processo estrutural de reorganização do território: o abandono das áreas internas e da agricultura abriu espaço para o crescimento dos bosques, que, sem manejo, viram-se transformados em combustível contínuo.

Então, como cultivar um futuro mais seguro? A resposta exige uma luz nova sobre o planejamento: investir em gestão florestal cuidadosa, prevenção contínua, políticas que incentivem a retomada de atividades rurais sustentáveis e mecanismos eficazes de fiscalização e repressão às causas humanas dos incêndios. É preciso semear práticas que revelem novos caminhos para o uso do solo, combinando a recuperação econômica das comunidades rurais com a segurança ambiental.

Viver num país de paisagens tão ricas impõe responsabilidade: não podemos aceitar incêndios ao estilo da Savannah ou de Yellowstone como destino inevitável. Com planejamento, gestão e vontade política, é possível iluminar um horizonte límpido onde o crescimento dos bosques seja também sinônimo de cuidado e proteção coletiva — um legado que vale ser cultivado.