Revisão do ETS da UE: como funciona o maior mercado de carbono e o que muda na luta pela descarbonização

Comissão Europeia revisa o ETS: entenda o funcionamento do mercado de carbono, mudanças propostas e impactos para indústria e clima.

Revisão do ETS da UE: como funciona o maior mercado de carbono e o que muda na luta pela descarbonização

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Revisão do ETS da UE: como funciona o maior mercado de carbono e o que muda na luta pela descarbonização

Hoje a Comissão Europeia apresenta a esperada revisão do sistema ETS, o mecanismo que governa o maior mercado de carbono do mundo. Esta proposta chega em um momento de tensão: Estados, grandes indústrias e organizações ambientais travam um debate aceso sobre custos, competitividade e a urgência climática. A Itália, junto com países do centro da Europa, tem defendido medidas para mitigar o impacto dos preços do carbono sobre a produção — e Bruxelas sinaliza concessões que tragam novas flexibilidade às empresas.

Em vigor desde 2005, o sistema ETS opera segundo o princípio do cap and trade — um limite máximo anual de emissões estabelecido a nível europeu e um mercado de quotas que permite comprar e vender permissões de emissão. Atualmente o sistema cobre cerca de 40% das emissões da União Europeia, incluindo usinas de energia, indústrias intensivas em energia (como aço, cimento, química, papel e vidro), refinarias e os voos intra-Europa; desde 2024 também cobre o transporte marítimo.

O teto de emissões é reduzido anualmente por um fator de redução linear, que está em 4,3% ao ano e passará para 4,4% em 2028, com o objetivo de aproximar o limite de zero por volta de 2039. Dentro desse teto, cada quota corresponde a uma tonelada de CO2 equivalente (o preço médio hoje gira em torno de 80 euros/tonelada). Empresas que emitem menos do que suas permissões podem vender o excedente; quem ultrapassa precisa comprar mais quotas para compensar.

Parte das permissões é leiloada, mas setores expostos ao risco de carbon leakage — a migração de produção para países de regulamentação climática mais frouxa — recebem atribuições gratuitas com base em benchmarks de eficiência, premiando instalações mais virtuosase. Com a entrada em vigor do CBAM (mecanismo de ajustamento do carbono na fronteira), que introduz um custo equivalente sobre importações, a expectativa é que a alocação gratuita seja gradualmente eliminada até 2034.

Além disso, está em preparação o ETS2, um sistema separado previsto para 2028 que aplicará o mesmo princípio a combustíveis usados no transporte rodoviário, aquecimento de edifícios e pequenas indústrias ainda fora do atual ETS — neste caso os responsáveis pela compra das quotas serão os fornecedores de combustíveis. Com o ETS2 em pleno funcionamento, a cobertura do sistema europeu chegará a cerca de 75% das emissões.

Desde 2019 existe também a reserva de estabilidade do mercado (MSR), criada para regular a oferta de quotas e reduzir a volatilidade dos preços retirando temporariamente permissões do mercado quando necessário. A revisão hoje proposta pela Comissão pretende ajustar instrumentos como a MSR, o calendário de redução do teto e as regras de flexibilidade, numa tentativa de equilibrar ambição climática e preservação da indústria europeia.

O cenário político e econômico é composto: setores industriais exigem amortecedores para manter empregos e cadeias produtivas; ambientalistas pedem aceleração das metas de descarbonização; e governos nacionais oscilam entre conservar competitividade e cumprir compromissos climáticos. A proposta da Comissão será o ponto de partida para meses de negociação no Parlamento Europeu e no Conselho, onde cada concessão terá implicações econômicas e éticas.

Como guardiã do legado comum e curadora de soluções, vejo nesse momento uma oportunidade de iluminar novos caminhos: é preciso semear políticas que conjuguem inovação tecnológica, justiça social e integridade ambiental. Ajustes técnicos ao sistema ETS podem dar respiro a empresas vulneráveis, mas não podem substituir investimentos reais na transição — eficiência energética, processos industriais limpos e redes de apoio para trabalhadores. O verdadeiro objetivo continua sendo cultivar um horizonte límpido, onde competitividade e sustentabilidade floresçam lado a lado.

Nos próximos dias, acompanharemos a tramitação da proposta — a negociação será a prova de fogo para a ambição climática europeia. Entre concessões e metas, há espaço para criar instrumentos que não apenas contenham o preço do carbono, mas sobretudo acelerem a transformação econômica necessária para um futuro mais justo e resiliente.