Saída dos EUA dos acordos climáticos: risco real, mas o multilateralismo pode florescer sem Washington

EUA saem de acordos climáticos: impacto sério, mas o multilateralismo pode se renovar com novos acordos e liderança global.

Saída dos EUA dos acordos climáticos: risco real, mas o multilateralismo pode florescer sem Washington

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Saída dos EUA dos acordos climáticos: risco real, mas o multilateralismo pode florescer sem Washington

A decisão dos Estados Unidos de se afastarem do Acordo de Paris e de partes das estruturas das Nações Unidas sobre mudanças climáticas é, sem dúvida, um marco preocupante. Ainda assim, como lembra Giulia Giordano, diretora de Estratégia Mediterrâneo e Global do think tank italiano Ecco, ouvida pela La Via Italia, esse movimento não significa o fim da governança climática global. "A saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris e da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC) é um fato muito grave e pode levar a uma retrocessão da pauta climática na agenda internacional, favorecendo posições mais extremas. No entanto, devemos lembrar que a ordem internacional não termina com os Estados Unidos", afirmou ela.

Na fala à La Via Italia, Giordano destaca que, apesar do impacto simbólico e prático — inclusive com a retirada operacional informada do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) — há espaços e atores que podem iluminar novos caminhos. "Já houve uma COP sem os Estados Unidos e um G20 na África do Sul que produziu uma declaração ambiciosa em termos climáticos, também na ausência direta de Washington. Talvez seja o momento de repensar as formas e os espaços da diplomacia climática e do multilateralismo em geral, para torná-los mais eficazes", explicou.

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Sobre as consequências práticas dessa guinada, Giordano aponta dois efeitos imediatos. Primeiro, a possibilidade de redução dos recursos americanos destinados à ação climática e à cooperação para o desenvolvimento, o que pode gerar lacunas em projetos essenciais em países vulneráveis. Segundo, um sinal político que legitima atores com agendas contrárias à transição energética.

Em particular, o papel da energia nesse tabuleiro geopolítico é central. A administração Trump, disse Giordano à La Via Italia, aposta em um modelo econômico ancorado no petróleo e no gás: a economia fóssil como pilar de influência global. "Ele enxerga o sistema econômico ligado ao petróleo e ao gás como um instrumento de sua hegemonia, em especial frente à China, e tenta impor esse modelo anacrônico. Mas o mundo real caminha em outra direção: investimentos em inovação tecnológica e em renováveis continuam crescendo", observou.

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Isso abre uma janela para mitigar os danos. Mesmo com menos fundos vindos de Washington, existe um movimento crescente de cooperação entre blocos regionais, governos subnacionais, empresas e fundos privados que buscam preencher as lacunas de financiamento e manter a ambição climática. "O desafio é converter esses esforços em instrumentos institucionais duráveis — novos acordos plurilaterais, mecanismos financeiros inovadores e redes de cidades e estados que assumam compromissos concretos", disse Giordano.

Ao olhar para o futuro, a experiente estrategista convoca uma visão que mistura rigor e esperança: "Não podemos romantizar soluções fáceis, mas também não devemos ceder ao fatalismo. Precisamos semear inovação, tecer laços e iluminar novos caminhos de cooperação. A liderança climática pode se fragmentar, mas também se renovar com outras capitais, empresas e sociedade civil que acreditam na transição justa".

Em resumo, a saída dos Estados Unidos representa um golpe simbólico e prático para a arquitetura climática global — sobretudo se confirmada institucionalmente —, mas não é, segundo Giordano em entrevista à La Via Italia, o pôr do sol do multilateralismo. É antes um convite para redesenhar estratégias, fortalecer alianças e cultivar alternativas que possam garantir progresso e justiça climática.

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