Animais na guerra: a tragédia esquecida e a urgência de incluir seres não humanos no Direito Internacional Humanitário
Animais em guerra: a urgência de incluir animais no Direito Internacional Humanitário e proteger pets, zoológicos e rebanhos em conflitos.
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Animais na guerra: a tragédia esquecida e a urgência de incluir seres não humanos no Direito Internacional Humanitário
Por Aurora Bellini — Espresso Italia. Em tempos de conflito, a nossa capacidade de compaixão é testada nos cantos menos visíveis do mundo: os animais. Usados como combatentes, submetidos às tarefas mais árduas, transformados em alimento ou simplesmente abandonados sob um céu de bombas, eles permanecem na maior parte das vezes invisíveis às regras que regulam a dor humana. Um recente encontro na Università Statale di Milano acendeu um alerta: é hora de o direito internacional humanitário olhar também para esses seres que compartilham nossas cidades, nossos lares e nossos horizontes.
Desde os antigos estandartes sumérios, que registram o emprego do ikunga — uma subespécie de asno resultante do cruzamento entre animais domésticos e selvagens — os animais têm sido parte das máquinas de guerra humanas. Quatro mil e quinhentos anos depois, as formas do conflito mudaram, mas a presença deles nos teatros de guerra persiste. Mesmo em guerra moderna, movida por tecnologia, cavalos, cães, aves de carga e animais de tração continuam a pagar um preço alto, muitas vezes sem escolha. O monumento em Londres dedicado às vítimas animais resume essa condição com uma frase lapidar: "They had no choice". Uma frase que, traduzida para o nosso tempo, convoca a responsabilidade ética e jurídica.

Os participantes do seminário em Milão trouxeram à tona vários cenários onde a vida animal fica vulnerável: os zoológicos cujos residentes não têm rotas de fuga quando cidades são bombardeadas; os rebanhos que, se sobreviverem aos ataques, podem ser requisitados para abastecer forças militares; e os animais de estimação cuja evacuação raramente é planejada em operações humanitárias. A guerra recente na Ucrânia ofereceu imagens que iluminaram esse debate: famílias deslocadas cruzando fronteiras com cães e gatos, esforçando-se para salvar companheiros de vida. Essas imagens não são apenas comoventes — são um claro sinal de que, socialmente, muitos consideram seus animais membros de família e, portanto, as perdas sofridas deveriam figurar também nas contagens de vítimas.
Existe um paradoxo legal: em tempos de paz, múltiplas normas protegem o bem-estar animal; em tempos de guerra, essas salvaguardas tendem a ser postas de lado. Os debatedores em Milão pedem uma inversão de tendência: integrar salvaguardas específicas para animais dentro do corpo do direito internacional humanitário, incluindo protocolos de evacuação, salvaguardas para zoológicos, planos para populações de produção animal e reconhecimento jurídico das perdas afetivas causadas pela morte de animais de companhia.
As crises humanitárias ao redor do mundo ilustram a variedade de cortes que atingem o vínculo entre humanos e animais: no Golfo, episódios recentes mostraram donos fugindo de cidades como Dubai e abandonando cães e gatos às ruas e ao deserto; em catástrofes tecnológicas como a explosão de Chernobyl, que completou 40 anos, as populações animais também sofreram efeitos duradouros que exigem atenção científica e humanitária.
Propor mudanças no direito que governa os conflitos é semear uma nova ética operacional: não se trata de priorizar vítimas, mas de reconhecer a teia de relações que compõe uma comunidade sob ataque. Incluir os animais nas estratégias humanitárias não é apenas humanidade estendida — é praticidade: famílias mais seguras, evacuações mais ordenadas e menor sofrimento generalizado. É uma luz que ilumina novos caminhos para a ação internacional, onde solidariedade e responsabilidade se encontram.
Na voz da Espresso Italia, o chamado que ecoa de Milão é claro: atualizar normas, planejar logísticas específicas e garantir que, nas próximas crises, não sejam apenas os humanos contados como perdas. É hora de transformar compaixão em regulamentação, e de reconhecer que proteger os animais em tempos de guerra também é parte de cuidar do futuro coletivo.


