De Teerã a Torino: a jornada luminosa de Doggodaiily que transformou cães em narrativa e livro
De Teerã a Torino: Navid Tarazi (Doggodaiily) transforma sua paixão por cães em livro publicado pela Mondadori Electa.
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De Teerã a Torino: a jornada luminosa de Doggodaiily que transformou cães em narrativa e livro
Por Aurora Bellini — Quando Navid Tarazi, conhecido nas redes como Doggodaiily, desembarcou em Torino vindo de Teerã, trouxe na mala apenas uma câmera, uma curiosidade generosa e um jeito calmo de observar o mundo. Em poucos anos, essa atenção transformou-se em um projeto visual que encantou o público: fotos tiradas à altura dos cães, páginas que respiram vida, histórias de coração e rabo, e um livro publicado pela Mondadori Electa — testemunho de que olhar com delicadeza pode semear novas conexões.
O livro, cujo título ecoa o bordão de Navid nas ruas — “Posso fare una foto al tuo cane?” — reúne imagens e textos que contam a convivência entre humanos e cães na cidade. Não se trata apenas de um catálogo de fofura: as fotografias revelam um mosaico social, uma antropologia afetiva que ilumina como o animal atravessa classes, histórias e afetos. A editora registrou vendas além das expectativas, sinal de que a obra encontrou um público sedento por narrativas que toquem o humano e o não-humano com a mesma reverência.
A apresentação na Salone del Libro 2026 foi modesta — poucos cães presentes, três ao todo, cada um com sua presença bonita — mas vigorosa em significado. Em uma cidade onde os cachorros praticamente participam da vida urbana sem precisar de cartazes que os proibam, o encontro mostrou que a força de Navid não está em multidões, e sim numa atenção concentrada: ele transforma o cotidiano em espetáculo sereno.
Filho de uma cultura onde cães não costumam aparecer nas ruas, Navid relata um aprendizado que é ao mesmo tempo linguístico e cultural. Chegando à Itália sem conhecer o idioma, ele foi decifrando os hábitos locais: notou, por exemplo, que alguém não diz simplesmente “tenho um cão”, mas sim “hoje tenho um bassotto”, como se a identificação com a raça falasse antes do vínculo. E aprendeu uma verdade comovente: nem todos os seus cães são de fato ‘seus’ — há sempre um que marcou a vida, um animal-ícone que permanece na memória afetiva mesmo quando chegam outros.
Essa iniciação antropológica se traduziu numa prática fotográfica delicada. Navid conta que, apesar do receio que algumas pessoas poderiam ter em relação ao desconhecido, nunca teve problemas com mordidas enquanto fotografava cães; curiosamente, foi mordido no primeiro dia em que tentou fotografar um gato. Ele aprendeu gestos e limites — que uma mão estendida sobre a cabeça pode deixar um animal tenso, por exemplo — e cultivou um método baseado no respeito, na calma e numa espécie de luz interior que lhe permite chegar perto sem invadir.
Comparando-se com outros criadores de conteúdo pet, Navid se distingue: sua presença é de um estrangeiro encantado que descobre em cada passo em Torino um novo universo canino. Suas imagens não celebram apenas a estética: iluminam histórias de vida, encontros e despedidas, a convivência que constrói cidade. O resultado é um livro que funciona como um farol — revela caminhos afetivos que ajudam a construir um horizonte mais límpido sobre como cuidamos e contamos as vidas dos animais ao nosso redor.
Em tempos em que a empatia é uma habilidade urgente, o trabalho de Doggodaiily nos lembra que olhar com precisão e ternura é um ato de renovação cultural. Este jovem iraniano, com sua câmera e sua paciência, semeia uma visão em que o cão não é apenas personagem fotogênico, mas testemunha e construtor de relações humanas mais sãs. E assim, passo a passo, ele nos convida a iluminar novos caminhos para a convivência.