Gaivota-real mediterrânea usa pão e pizza como isca para pescar — primeira observação confirma inovação comportamental
Gaivota-real mediterrânea usa pão e pizza como isca para fisgar peixes: primeira observação aponta inovação comportamental e ligação com interação humana.
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Gaivota-real mediterrânea usa pão e pizza como isca para pescar — primeira observação confirma inovação comportamental
Por Aurora Bellini, Espresso Italia — Em um exemplo fascinante de adaptação e inteligência, uma gaivota-real mediterrânea (Larus michahellis) foi filmada usando pedaços de pão e até de pizza como iscas para atrair e capturar peixes. O episódio, observado em 10 de maio de 2025 em Scilla (província de Reggio Calabria), foi documentado por cidadãos e agora integra uma investigação científica que ilumina novas facetas das capacidades cognitivas desta espécie.
Durante cerca de 30 minutos, a ave coletou fragmentos de alimento flutuantes, posicionou-os deliberadamente sobre a superfície do mar e aguardou a aproximação de peixes — entre eles castagnole e cefali (tainhas). Só então lançou o ataque, conseguindo, em ao menos um registro, capturar uma castagnola. O comportamento foi repetido diversas vezes, configurando um padrão que vai além do simples oportunismo.
Segundo os pesquisadores da Stazione Zoologica Anton Dohrn de Nápoles, autores do estudo publicado na revista Behaviour, quando um animal manipula e reposiciona objetos com finalidade específica, estamos diante de uma forma de uso de ferramenta ou de uma técnica que se aproxima disso. A chamada "pesca com isca" já foi observada em pouquíssimas espécies de aves; tratam‑se, portanto, de comportamentos raros — e esta é a primeira vez que se registra tal prática no gaivota-real mediterrânea.
Os cientistas sugerem que a origem desta estratégia esteja intimamente ligada à interação com seres humanos. Em locais turísticos e costeiros onde pessoas ou restaurantes descartam pão e outros alimentos no mar, as gaivotas têm a oportunidade de associar a presença de alimento flutuante à chegada de cardumes, desenvolvendo assim novas formas de caça. "Trata‑se possivelmente de uma inovação comportamental aprendida", escrevem os autores do estudo.
O episódio foi reportado ao projeto Seagull GO, iniciativa da Stazione Zoologica Anton Dohrn que coleta relatos e vídeos de comportamentos incomuns enviados por cidadãos. Em resposta às imagens, foi iniciada uma investigação estruturada: o ornitólogo Rosario Balestrieri afirma que, desde a identificação do fenômeno, a equipe vem monitorando e documentando registros complementares. Os responsáveis pelo restaurante onde o comportamento foi detectado confirmaram aos pesquisadores que a ave já havia repetido a técnica em outras ocasiões.
Como curadora de progresso, percebo neste episódio um justo ponto de luz: a natureza revela sua capacidade de aprender e de transformar subprodutos humanos em estratégias de sobrevivência — um lembrete de que nossos atos cotidianos deixam rastros e moldam comportamentos selvagens. Ao mesmo tempo, há uma chamada ética e prática clara: alimentar fauna selvagem de forma indiscriminada pode desencadear mudanças de longo alcance nas dinâmicas ecológicas.
O registro em Scilla convida a uma reflexão mais ampla sobre como convivemos com o mundo natural — e sobre a responsabilidade de semear práticas que preservem tanto os animais quanto o equilíbrio dos ecossistemas. Documentos como o publicado em Behaviour funcionam como faróis, iluminando caminhos para pesquisas futuras e políticas locais que conciliem turismo, gastronomia costeira e bem‑estar animal.
Continuaremos a acompanhar os desdobramentos do estudo e as possíveis implicações dessa inovação comportamental observada na gaivota‑real mediterrânea. Que este episódio sirva para cultivar uma convivência mais consciente entre humanos e aves marinhas, tecendo laços que promovam um horizonte límpido para a natureza e para as comunidades que dela dependem.