A «guerra civil» dos chimpanzés de Kibale: por que a população de Ngogo se dividiu em duas facções

Estudo em Science explica por que a maior comunidade de chimpanzés de Kibale, em Uganda, se dividiu e entrou em conflito violento desde 2015.

A «guerra civil» dos chimpanzés de Kibale: por que a população de Ngogo se dividiu em duas facções

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A «guerra civil» dos chimpanzés de Kibale: por que a população de Ngogo se dividiu em duas facções

Na floresta de Kibale, em Uganda, a maior comunidade de chimpanzés conhecida pelos pesquisadores passou por uma ruptura dramática. Um estudo publicado na revista Science esclarece as origens desse cisma: a comunidade de Ngogo fragmentou‑se em dois subgrupos — referidos pelos cientistas como “ocidental” e “central” — e, a partir de 2015, entrou num ciclo de violência prolongada que alguns pesquisadores comparam a uma verdadeira guerra civil animal.

Segundo os autores do estudo, liderados pelo antropólogo Aaron Sandel, da Universidade do Texas, o conflito evoluiu de desentendimentos e rivalidades rotineiras para ataques deliberados. Entre 2018 e os anos seguintes foram registrados 24 ataques intencionais, dos quais 17 tiveram como vítimas filhotes do grupo central, arrancados das mães; os cientistas acreditam que o número real de mortes pode ser ainda maior.

“Eram chimpanzés que se tocavam e se cuidavam. Hoje, parecem empenhados em se eliminar mutuamente”, disse Sandel, descrevendo como esses primatas, normalmente cooperativos após brigas — com gritos, perseguições e depois momentos de higiene mútua — passaram, após 2015, por um período de seis semanas de mútua evitação e, depois, por contatos muito mais agressivos.

Os autores apontam fatores habituais que alimentam rivalidades entre grupos de chimpanzés — tamanho do grupo, competição por recursos e disputa reprodutiva entre machos — mas identificaram três eventos possíveis desencadeadores para a implosão em Ngogo: a morte, em 2014, de cinco machos adultos e de uma fêmea (causas desconhecidas), que pode ter fragilizado as redes sociais internas; a substituição do macho alfa em 2015, coincidindo com o início da separação entre ocidentais e centrais; e uma epidemia respiratória em 2017 que matou 25 indivíduos, incluindo quatro machos adultos e dez fêmeas adultas, reduzindo ainda mais a coesão do grupo.

Rupturas permanentes entre chimpanzés são eventos raríssimos: evidências genéticas sugerem que ocorrem, em média, apenas uma vez a cada 500 anos. O caso de Ngogo difere também da célebre “guerra de Gombe”, na Tanzânia, relatada por Jane Goodall nos anos 1970, porque aqui não há indícios de que o fornecimento artificial de alimento (provisioning) tenha sido um fator impulsionador.

Para a comunidade científica, este episódio é um espelho que ilumina tanto as continuidades quanto as tensões entre comportamentos humanos e animais. Os chimpanzés exibem territorialidade e hostilidade intergrupal que lembram dinâmicas humanas, mas também mostram capacidades de reconciliação e cooperação que podem ressurgir quando as condições sociais se restabelecem.

Enquanto pesquisadores de campo seguem monitorando Ngogo, a história desses animais nos convida a refletir sobre como perdas — biológicas e sociais — podem abrir fissuras profundas em qualquer comunidade. É um lembrete de que, para semear um futuro mais estável, precisamos cultivar redes de proteção que mitigam choques e permitam a regeneração do tecido social. Iluminar esses mecanismos e aprender com eles é um pequeno gesto de sabedoria: permite que a ciência e a conservação teçam novos caminhos e contribuam para um horizonte mais límpido, onde a convivência coletiva possa florescer novamente.