Síria e Rússia fecham acordo: bases de Hmeimim e Tartus serão transformadas em centros de treinamento conjunto
Síria e Rússia acordam transformar as bases de Hmeimim e Tartus em centros de treinamento conjunto, marcando nova fase nas relações bilaterais.
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Síria e Rússia fecham acordo: bases de Hmeimim e Tartus serão transformadas em centros de treinamento conjunto
Por Marco Severini, Espresso Italia
Em um movimento que altera a tessitura das presenças militares no Mediterrâneo oriental, a Síria anunciou ter alcançado um acordo com a Rússia sobre o futuro das duas bases russas no país: a base aérea de Hmeimim e o porto comercial de Tartus. Segundo comunicado do Ministério das Relações Exteriores sírio, reproduzido pela agência oficial Sana, as instalações serão colocadas sob a administração civil de Damasco e convertidas em centros de treinamento conjuntos no âmbito de novos acordos destinados a salvaguardar interesses mútuos.
O pacto, fruto de negociações que se estenderam por cerca de um ano e meio, prevê um prazo de até três meses para a conclusão do processo de transferência das áreas civis das bases — incluindo os molhes comerciais de Tartus — às autoridades sírias. O Ministério qualificou o desenlace como "o desenvolvimento mais significativo desde o início das negociações", abrindo caminho para uma nova fase nas relações bilaterais.
Hoje, o ministro das Relações Exteriores sírio, Asaad al-Shaibani, inspecionou as duas instalações, que historicamente constituíram os únicos postos militares oficiais russos fora do espaço da antiga União Soviética. As bases permaneceram operacionais durante o período de diálogo. A presença russa em Hmeimim e Tartus foi decisiva desde 2015, quando Moscou interveio militarmente no conflito sírio em apoio ao presidente Bashar al-Assad, empregando capacidades aéreas e logísticas contra áreas controladas por rebeldes.
O entendimento anunciado deve ser lido como um reposicionamento estratégico: converte uma presença militar explícita em uma plataforma de cooperação institucional mais palatável no campo diplomático e de segurança. Em termos de arquitetura das influências, é um movimento que transforma fortalezas em pontos de contato sob administração local, reduzindo, ao menos formalmente, a impressão de ocupação e redefinindo a utilidade das bases como centros de formação e interoperabilidade.
O comunicado também traça um breve panorama pós-conflito: a Rússia foi o principal aliado político e militar do então presidente Bashar al-Assad entre 2011 e 2024, período em que a Síria enfrentou uma oposição armada dominada por elementos islamistas. Após a destituição de Assad, Moscou ofereceu asilo à família do ex-presidente, e as unidades russas remanescentes reduziram gradualmente sua presença no território sírio. A nova liderança em Damasco manteve, contudo, laços estreitos com Moscou — o atual presidente interino, Ahmad al-Sharaa, visitou Vladimir Putin em duas ocasiões, com as bases no Mediterrâneo figurando como tema central das conversações.
Paralelamente ao alinhamento com Moscou, a Síria tem reaproximado-se de Washington, de capitais europeias e de países árabes vizinhos que haviam rompido relações durante os anos mais duros da repressão. Os Estados Unidos revogaram grande parte das sanções que tinham caráter paralisante, e o presidente francês Emmanuel Macron visitou Damasco em julho, acordando a reabertura de embaixadas após 14 anos.
Do ponto de vista geopolítico, este acordo é um movimento estratégico no tabuleiro regional: implica um redesenho de fronteiras de influência não visíveis, onde a conversão das bases em centros de treinamento representa tanto uma formalização da presença russa quanto uma concessão simbólica à soberania síria. A tectônica de poder no Mediterrâneo oriental permanece fluida; contudo, a neutralização do caráter puramente militar dessas infraestruturas poderá facilitar mecanismos de cooperação e reduzir atritos imediatos entre grandes atores.
Em suma, trata-se de um ajuste fino nas peças do xadrez diplomático — um movimento calculado que busca preservar capacidades estratégicas, ao mesmo tempo em que reconstrói alicerces frágeis de legitimação internacional.