Papa alerta para 'hora escura da história' e convoca missão desarmada da Igreja
Papa diz que vivemos uma 'hora escura' e convoca a Igreja a uma missão desarmada, de encontro e reconciliação, durante a missa crismal.
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Papa alerta para 'hora escura da história' e convoca missão desarmada da Igreja
Na missa crismal desta Quinta-feira Santa, o Papa descreveu o momento atual como uma "hora escura da história" e reafirmou a missão da Igreja de ser presença reconciliadora onde o mundo está "contesto entre potências que o devastam". A homilia, proferida diante do clero reunido para a bênção dos Santos Óleos, articulou diagnóstico e orientação pastoral com clareza técnica e apelo prático.
O Papa afirmou que, em meio à devastação provocada por rivalidades geopolíticas, nasce "um povo novo, não de vítimas, mas de testemunhas". Segundo o pontífice, "foi do agrado de Deus nos enviar para difundir o perfume de Cristo onde reina o cheiro da morte" — imagem usada para sublinhar a missão de proximidade e presença ativa da Igreja nos territórios marcados pela violência e pela exclusão.
O pronunciamento renovou o apelo a um compromisso coletivo: "Rinnoviamo il nostro 'sì' a questa missão che ci chiede unità e che porta la pace", disse o Papa, acrescentando que a cruz é componente inseparável dessa missão. Na sua leitura, a cruz não é mero símbolo de sofrimento isolado, mas instrumento pelo qual "a ocupação imperialista do mundo é então interrompida dall'interno" e a violência que se tenta fazer lei é desmascarada.
Ao traçar os contornos da atuação eclesial, o Papa advertiu contra respostas que reproduzam "logicas de dominio". "O amor é verdadeiro apenas se desarmado", declarou, contrapondo a lógica do poder à lógica evangélica do serviço. A homilia destacou um princípio estrutural da missão: o esvaziamento, paradigma pelo qual "tudo renasce" — referência explícita ao movimento de kenosis, em que a dignidade filial não se perde, mas apegos e posses são relativizados para que o anúncio seja autêntico.
Em termos práticos, o Papa recordou que a Igreja é chamada a reconciliar-se com suas origens, reconhecendo "os dons e os limites da formação recebida". "Não há missão sem reconciliação com as nossas origens; não há paz sem partidas; não há consciência sem desapego; não há alegria sem risco", afirmou. A recomendação é dupla: fazer as contas com o passado sem ficar prisioneiro dele e, ao mesmo tempo, não ceder à tentação de ostentar sinais de poder ao se aproximar dos pobres.
O pontífice também advertiu que "não existe 'boas-novas aos pobres' se vamos a eles com signos de poder", e que a libertação autêntica exige, antes, que aqueles que anunciam o Evangelho se libertem "do possuir". Assim, pontuou, um "outro segredo da missão cristã" é a "lei do encontro", capaz de restituir dignidade pela proximidade e pelo reconhecimento humano.
Ao fechar a homilia, o Papa fez um apelo à unidade e à coerência: a missão exige coragem para o desprendimento e capacidade de encontrar o Outro sem máscaras de dominação. A mensagem, proferida em contexto solene e com cruzamento de referências bíblicas e pastorais, foi entregue como orientação programática para o clero e para a comunidade cristã em tempos de tensão internacional.