Distúrbios mentais dobraram em 30 anos: 1,2 bilhão afetados e ansiedade e depressão são emergência global
Estudo no The Lancet: distúrbios mentais dobraram em 30 anos; 1,2 bi de pessoas afetadas, com ansiedade e depressão em destaque.
RESUMO ✦
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Distúrbios mentais dobraram em 30 anos: 1,2 bilhão afetados e ansiedade e depressão são emergência global
Um estudo abrangente publicado em The Lancet e coordenado pelo Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME), em parceria com a University of Queensland, revela que os distúrbios mentais quase se dobraram desde 1990. Hoje, cerca de 1,2 bilhão de pessoas convivem com algum transtorno mental, tornando esses quadros a principal causa global de anos vividos com incapacidade.
A pesquisa, que analisou prevalência e impacto de transtornos mentais em 204 países entre 1990 e 2023, é o levantamento mais amplo já feito sobre o peso global desses problemas. No ano de 2023, os transtornos mentais foram responsáveis por um total de 171 milhões de DALYs (anos de vida ajustados por incapacidade), o que corresponde a mais de 17% de todos os anos vividos com incapacidade no mundo. Entre as 304 causas de doença e lesão consideradas no estudo, a ansiedade e a depressão maior aparecem entre as principais posições, ocupando o 11º e o 15º lugar, respectivamente.
O relatório também destaca um salto preocupante após a pandemia de Covid-19: desde 2019 houve um aumento padronizado de cerca de 24% na prevalência da depressão maior e de mais de 47% nos transtornos de ansiedade. Os autores advertem que as consequências psicológicas do período pandêmico se somam a fatores estruturais de longa duração — pobreza, insegurança social, violência, abuso e a erosão das relações sociais — ampliando a vulnerabilidade das populações.
“Esses números podem refletir tanto os efeitos persistentes do stress ligado à pandemia quanto fatores estruturais aprofundados ao longo de décadas”, observa Damian Santomauro, do Queensland Centre for Mental Health Research, autor principal do estudo. A recomendação é clara: serão necessários investimentos contínuos nos sistemas de saúde mental, expansão do acesso aos cuidados e uma ação global coordenada dirigida aos grupos mais expostos.
Um dado que aparece como um eco da mudança de estações na vida humana é a concentração do maior impacto entre adolescentes e jovens adultos, especialmente na faixa de 15 a 19 anos. Nesta fase, em que se moldam educação, trajetória profissional e redes de afeto, a presença da ansiedade e da depressão pode definir colheitas difíceis no futuro de uma geração. “Na adolescência, ansiedade e depressão se tornam os principais componentes do fardo da doença mental”, explica Alize Ferrari, coautora do estudo.
O estudo também evidencia desigualdades de gênero: em 2023, aproximadamente 620 milhões de mulheres viviam com ao menos um transtorno mental, contra 552 milhões de homens. O fardo medido em DALYs foi maior entre mulheres (92,6 milhões) do que entre homens (78,6 milhões), refletindo diferenças na exposição, no reconhecimento e no impacto social dessas condições.
Como um observador que sente o pulso da cidade e as estações do corpo, lembro que essa crise é tanto médica quanto cultural: é a respiração das comunidades que fica mais curta quando redes de apoio se fragilizam. Enfrentar essa emergência exigirá políticas firmes, cuidado acessível e uma narrativa pública que restaure vínculos — uma verdadeira semeadura de bem-estar.
O chamado final dos pesquisadores é por respostas integradas: serviços de saúde mental fortalecidos, acesso ampliado a intervenções baseadas em evidência e políticas sociais que enfrentem as raízes estruturais do sofrimento mental. Em outras palavras, transformar a paisagem da saúde pública para que o inverno da mente ceda a um ciclo de recuperação mais humano e solidário.