Macacos de Gibraltar comem terra para neutralizar danos de snacks, revela estudo de Cambridge
Estudo de Cambridge mostra macacos de Gibraltar comendo terra para reduzir danos dos snacks deixados por turistas.
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Macacos de Gibraltar comem terra para neutralizar danos de snacks, revela estudo de Cambridge
Por Alessandro Vittorio Romano — Observador de saúde, clima e estilo de vida
Um estudo da Universidade de Cambridge traz uma cena que mistura ciência e fábula: os macacos da Roca de Gibraltar estão recorrendo à geofagia — a ingestão de terra — logo após consumir snacks e outros alimentos industriais deixados ou atirados por turistas. Entre o verão de 2022 e a primavera de 2024, os pesquisadores documentaram 46 episódios de ingestão de solo, envolvendo 44 dos cerca de 230 macacos de Barbary observados, num total de 98 dias de campo.
É como se a paisagem desse pedaço de rocha respirasse uma solução esperta: a terra funciona como um remendo temporário no interior do intestino, reduzindo a absorção de compostos nocivos e amenizando as irritações geradas pelo consumo súbito de alimentos ricos em açúcar, sal, gordura e laticínios. Em outras colônias, a prática existe, mas é rara e circunstancial; em Gibraltar, tornou-se quase cotidiana — uma pequena medicina natural diante do excesso induzido pelo humano.
Os macacos de Barbary, tradicionalmente, mantêm uma dieta de ervas, folhas, sementes e alguns insetos — uma alimentação pobre em calorias, mas rica em fibras. O contraste com as barras de chocolate, batatas fritas e gelados que compõem os lanches dos turistas é tão nítido quanto o choque entre estações que observo nas minhas caminhadas: o corpo reage ao alimento como a paisagem reage ao clima, procurando um equilíbrio.
“Acreditamos que os macacos começaram a comer terra para proteger seu sistema digestivo do alto teor energético e baixo teor de fibras desses snacks”, explica o dr. Sylvain Lemoine, antropólogo biológico envolvido no estudo. Os cientistas também notaram que a frequência dessa prática aumenta quanto mais intensos são os contatos com visitantes humanos — um indício direto de como o comportamento antropogênico modifica impulsos evolutivos e hábitos cotidianos da fauna.
Há uma analogia dura, quase poética: comer terra permite aos primatas continuar a consumir comida prejudicial, como se um fumante usasse um inalador para aliviar sintomas antes de acender outro cigarro. A terra reveste o intestino e reduz irritações, mas não elimina o dano de base — a mudança de hábito continuaria sendo a solução mais limpa e sustentável.
Os pesquisadores sugerem proibir o oferecimento de alimento por turistas, mas essa é uma batalha contra a inclinação humana de compartilhar — mesmo quando compartilha a própria tendência à autodestruição. O que vejo em cena é a interseção entre afeto mal colocado, comportamento cultural e sobrevivência: a cidade e seus visitantes exalam uma “respiração” que altera o tempo interno do corpo dos animais. A natureza responde com a sua sabedoria bruta, transformando a lama e a terra em um medicamento improvisado.
Como observador, penso na urgência de tratarmos a convivência com mais cuidado. Não apenas para poupar os macacos, mas também como espelho do que oferecemos a nós mesmos: uma colheita de hábitos que, se mal cultivada, pede remendos que nunca serão suficientes. A solução passa por educação, regras e empatia — e por reconhecer que, às vezes, o que parecia apenas um gesto de afeto turístico é, na verdade, uma semente de dano que a própria natureza tenta conter.