Por que as mulheres vivem mais que os homens? O que a ciência italiana revela sobre longevidade
Por que as mulheres vivem mais que os homens? Estudo italiano explora genética, sistema imunológico, exposoma e as lições das Blue Zones.
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Por que as mulheres vivem mais que os homens? O que a ciência italiana revela sobre longevidade
Na Itália vivem mais de 23.000 centenários — e a esmagadora maioria são mulheres. Entre os supercentenários, aqueles que ultrapassam os 110 anos, a proporção chega a ser superior a 10 para 1 em favor das mulheres. Esses números, ao mesmo tempo fascinantes e inquietantes, foram um dos focos do Vatican Longevity Summit, realizado em Roma nos dias 25 e 26 de maio, onde o professor Calogero Caruso apresentou achados recentes de estudos italianos sobre o envelhecimento extremo.
“A longevidade não depende de um único fator”, diz Caruso. “É o resultado de um equilíbrio complexo entre genética, sistema imunológico, ambiente, alimentação, relações sociais e capacidade de adaptação”. É como observar a respiração lenta de uma paisagem: muitas forças discretas moldam o sopro da vida ao longo do tempo.
Uma das ideias centrais discutidas é a do inflamm-ageing: uma inflamação crônica e silenciosa que aumenta com a idade e favorece o surgimento de várias doenças associadas ao envelhecimento. Nesse cenário, o sistema imunológico deixa de ser apenas um defensor rígido e torna-se um maestro da adaptação. Estudos com centenários mostram que aqueles que alcançam idades extremas nem sempre têm corpos “perfeitos”, mas demonstram uma notável habilidade de modular respostas imunes e inflamatórias ao longo da vida.
Caruso abordou também as diferenças de gênero na trajetória do envelhecimento. Por que as mulheres vivem, em média, mais do que os homens, mas frequentemente convivem por mais anos com doenças crônicas e limitações funcionais? A explicação, segundo ele, vai além de hormônios ou cromossomos: envolve estilo de vida, trabalho de cuidado, acesso aos serviços de saúde, estresse social e condições econômicas. Em outras palavras, o tempo do corpo está entrelaçado com o tempo vivido — a colheita de hábitos, oportunidades e desigualdades.
Para compreender a longevidade contemporânea, Caruso propõe olhar ao mesmo tempo para genética, exposições ambientais e trajetórias de vida — o que a ciência chama de exposoma. O exposoma reúne tudo o que nos envolve ao longo da existência: alimentação, poluição, relações afetivas, trabalho, estresse, clima e acesso aos cuidados. Essa lente ajuda a explicar por que regiões distintas podem produzir histórias distintas de envelhecimento.
O professor também lembrou das chamadas Blue Zones, áreas do planeta onde as pessoas têm maior probabilidade de viver mais e melhor. O que une esses lugares não é um gene mágico, mas fatores concretos: laços sociais fortes, alimentação moderada e baseada em plantas, movimento cotidiano integrado à vida, sono de qualidade e níveis reduzidos de estresse crônico. São hábitos que desenham uma paisagem de bem-estar ao longo das estações da vida.
Ao final, a mensagem que emerge do encontro é clara e humana: a longevidade é uma transformação demográfica que muda tudo — saúde, previdência, trabalho, relações e o modo como gerimos fragilidades. Olhar para o envelhecimento com sensibilidade, combinando ciência e cuidado, é cultivar raízes que permitem florescer mais tempo, com dignidade e qualidade de vida.