Nuclear sustentável: o que é, tecnologias-chave e quando o Brasil e a Europa poderão contar com elas

Entenda o que é o nuclear sustentável, SMR, AMR, reatores de 4ª geração e quando essas tecnologias poderão contribuir para a descarbonização.

Nuclear sustentável: o que é, tecnologias-chave e quando o Brasil e a Europa poderão contar com elas

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Nuclear sustentável: o que é, tecnologias-chave e quando o Brasil e a Europa poderão contar com elas

Em uma conversa com a Espresso Italia, Alessandro Dodaro, diretor do Departamento Nuclear da Enea, traça um panorama claro e prudente sobre o que chamamos de nuclear sustentável — as tecnologias emergentes, seus potenciais práticos já nas próximas décadas e os desafios que permanecem em termos de resíduos, regulação e aceitação social. Iluminar esse caminho é também semear uma visão de longo prazo para a descarbonização energética.

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Tecnologias e gerações: onde estamos

Quando falamos de nuclear sustentável, referimo-nos sobretudo a duas frentes tecnológicas que estão entre a terceira e a quarta geração de reatores. De um lado, os Small Modular Reactors (SMR), que aproveitam a base tecnológica dos Light Water Reactors (LWR) — a família da chamada Geração III/III+. Do outro, os Advanced Modular Reactors (AMR), que trazem como herança as pesquisas e inovações da quarta geração.

Os reatores de Geração III/III+ são evoluções dos modelos anteriores: projetados para maior vida útil (estendendo-se de 40 para até 60 anos), eficiência e níveis de segurança aprimorados, com ampla adoção de sistemas passivos. No entanto, muitos desses projetos ainda compartilham a limitação de um ciclo de combustível não fechado, o que impõe a necessidade de armazenamento seguro a longo prazo do combustível irradiado.

O salto da quarta geração: reatores refrigerados a chumbo

Entre as propostas de Geração IV, os reatores rápidos refrigerados a chumbo (conhecidos pela sigla inglesa LFR - Lead-cooled Fast Reactor) representam um avanço notável. O uso do chumbo como refrigerante oferece vantagens físicas capazes de garantir a presença do refrigerante mesmo em situações de acidente, aumentando a robustez e a segurança intrínseca do sistema. Além disso, esses projetos prometem maior resistência à proliferação e maior eficiência no aproveitamento do combustível — passos essenciais para um nuclear sustentável.

Para coordenar o desenvolvimento desses conceitos, foi criado em 2001 o Generation IV International Forum (GIF), do qual a Itália participa por meio da representação europeia. A meta é tornar alguns desses sistemas industrialmente disponíveis nas décadas futuras, especialmente nos anos 2030.

SMR, AMR e o horizonte de implantação

Os SMR e AMR aparecem como opções que podem contribuir significativamente para a descarbonização já nas próximas décadas: sua modularidade, custos escaláveis e flexibilidade operacional os tornam candidatos atrativos para substituir usinas fósseis em mercados determinados. Alguns projetos-piloto e linhas de demonstração já avançam em vários países, o que pode acelerar a curva de adoção.

Fusão nuclear: a energia das estrelas

Além dos reatores fissionais de nova geração, há a promessa transformadora da fusão nuclear — a chamada "energia das estrelas". A fusão oferece potencial para gerar eletricidade de forma abundante e intrinsecamente segura, usando o mesmo mecanismo que sustenta o brilho dos astros. Projetos internacionais de pesquisa e demonstração continuam avançando, mas o caminho para uma produção comercial em larga escala permanece de médio a longo prazo.

Resíduos e ciclo do combustível

Uma peça central do debate sobre nuclear sustentável é o manejo dos resíduos radioativos. Enquanto reatores baseados em LWR exigem armazenamento a longo prazo — tipicamente em um depósito geológico —, as soluções de quarta geração e o desenvolvimento de um ciclo do combustível fechado podem reduzir tanto o volume quanto a toxicidade dos rejeitos, além de otimizar o aproveitamento dos recursos nucleares.

Quando estaremos prontos?

Segundo Dodaro, algumas tecnologias — como variantes de SMR baseadas em LWR — já estão em fase de implementação em diferentes países e podem começar a contribuir de forma concreta para a descarbonização nas próximas décadas. Os sistemas de quarta geração, incluindo LFR, têm forte foco de pesquisa e desenvolvimento e podem chegar ao estágio industrial ao longo dos anos 2030. A fusão, por sua vez, permanece como uma meta estratégica de maior horizonte temporal.

Conclusão

Trazer o nuclear sustentável para o centro da matriz energética exige um esforço coletivo: investigação científica, investimentos industriais, regulação clara e diálogo público informado. É um trabalho de construção de luz coletiva — onde a tecnologia se alia a valores sociais para cultivar um horizonte límpido de energia segura e de baixo carbono. Como curadora de progresso, enxergo nesses caminhos a possibilidade real de semear inovação e compor um legado de resiliência para as futuras gerações.

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