Aceleração do derretimento dos glaciares impulsiona a elevação dos mares na Europa e no mundo

Estudo com 50 anos de satélites mostra perda de 11,3 trilhões de toneladas de gelo e elevação dos mares em 31,4 mm; fluxo glacial é o principal motor.

Aceleração do derretimento dos glaciares impulsiona a elevação dos mares na Europa e no mundo

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Aceleração do derretimento dos glaciares impulsiona a elevação dos mares na Europa e no mundo

Uma análise integrada de meio século, coordenada pela Northumbria University e realizada em parceria com o INGV, a ESA e a NASA, reconstruiu a evolução recente das grandes calotas polares usando registros de satélite e modelagem geofísica. O esforço, publicado em revista científica de referência, sintetiza 42 levantamentos e 27 missões espaciais do projeto Ice Sheet Mass Balance Inter-comparison Exercise (IMBIE), formando o quadro comparativo mais extenso já produzido sobre perdas de gelo na Groenlândia e na Antártida.

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Os pesquisadores estimam uma perda acumulada de aproximadamente 11,309 trilhões de toneladas de gelo entre 1979 e 2023, o que se traduz em um acréscimo de cerca de 31,4 milímetros no nível médio global dos oceanos. A maior parte desse incremento provém da Groenlândia (cerca de 18,1 mm), enquanto a Antártida contribuiu com cerca de 13,3 mm.

Do ponto de vista da infraestrutura física do planeta, o estudo trata o sistema de gelo como um componente dinâmico conectado ao leito rochoso e ao sistema de transporte oceânico. O trabalho do INGV concentrou-se em modelar a deformação da superfície terrestre provocada pela variação de carga dos mantos de gelo — o chamado ajuste isostático — que é necessário para separar o sinal da perda real de gelo da elevação lenta do substrato desde a última deglaciação, há cerca de vinte mil anos.

Um dos resultados analíticos mais relevantes é a identificação dos mecanismos dominantes da perda: cerca de 84% do declínio total de massa glacial se deve ao rápido escoamento dos mantos de gelo em direção ao oceano (fluxo de gelo e ruptura de plataformas), enquanto apenas 16% é atribuído à fusão superficial. Em termos de analogia de infraestrutura, não é a 'chuva' (a fusão de superfície) que mais está causando o colapso, mas sim o 'transporte' interno de carga — o sistema nervoso dos glaciares acelerando o envio de gelo para o mar.

O coautor Daniele Melini (INGV) destaca que a perda de massa aumentou de forma acentuada a partir dos anos 1990. Na Groenlândia, o balanço saiu de cerca de 60 bilhões de toneladas por ano nos anos 1980 para aproximadamente 264 bilhões por ano nas primeiras décadas do século XXI, período marcado por episódios recorrentes de derretimento estival extremo. Na Antártida, a taxa média anual subiu de 48 bilhões nos anos 1980 para 202 bilhões nos anos 2010, impulsionada majoritariamente pelo aumento do fluxo de gelo na Antártida Ocidental, com destaque para as plataformas alimentadas pelos glaciares Pine Island e Thwaites.

Os autores também observam uma desaceleração temporária entre 2020 e 2023, associada a nevascas excepcionais na Antártida Oriental e verões menos intensos na Groenlândia. Contudo, os pesquisadores enfatizam que episódios pontuais de variabilidade climática não alteram a tendência de longo prazo de perda de massa glaciar. Em linguagem de sistemas, são flutuações na carga e na demanda — mas não uma mudança na arquitetura do fluxo.

Do ponto de vista prático para cidades costeiras europeias e para a gestão de infraestrutura, esses milímetros adicionais no nível do mar significam maior risco de erosão, intrusão salina em aquíferos e maior frequência de eventos costeiros extremos quando combinados com tempestades e marés altas. A pesquisa sublinha a necessidade de integrar observações por satélite com modelos geodinâmicos para calibrar as estratégias de adaptação urbana e de proteção costeira, tratando o derretimento dos glaciares como um componente previsível, ainda que exigente, do alicerce de planejamento das próximas décadas.

Em resumo: o aumento do nível do mar até aqui tem uma origem predominantemente dinâmica — o escoamento dos glaciares — e não exclusivamente térmica. Para políticas públicas e infraestrutura, isso reforça a importância de monitoramento contínuo por satélites e modelos que articulam camadas de inteligência entre gelo, crosta terrestre e oceano.

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