Ativistas em Bruxelas pedem proteção à Corte Penal Internacional diante de pressões de Rússia e EUA

Ativistas em Bruxelas pedem que a UE proteja a Corte Penal Internacional contra pressões da Rússia e dos EUA e ative o Blocking Statute.

Ativistas em Bruxelas pedem proteção à Corte Penal Internacional diante de pressões de Rússia e EUA

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Ativistas em Bruxelas pedem proteção à Corte Penal Internacional diante de pressões de Rússia e EUA

Bruxelas — Em frente ao edifício Berlaymont, sede da Comissão Europeia, ativistas de Eumans e da ONG Non c’è pace senza giustizia (NPWJ) realizaram hoje uma manifestação para exigir medidas urgentes em defesa da Corte Penal Internacional (CPI) e da integridade do direito penal internacional. A iniciativa, lançada como ponto de partida da mobilização “Defenda a Corte Penal Internacional — Defenda o Estado de Direito Internacional”, apela diretamente à presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, para que a Comissão intervenha com firmeza.

A ação foi promovida pelo movimento paneuropeu de iniciativa não violenta Eumans, fundado pelo ex-eurodeputado Marco Cappato, em conjunto com a NPWJ, organização comprometida com a proteção dos direitos humanos e do Estado de direito. Segundo os organizadores, os ataques políticos e as sanções levadas a cabo por potências como a Rússia e os Estados Unidos visam minar a autonomia e a capacidade operacional da CPI, comprometendo um dos poucos alicerces jurídicos voltados ao julgamento de crimes internacionais.

O contexto desta mobilização é conhecido: em 2023 a CPI emitiu um mandato de prisão contra o presidente russo Vladimir Putin no quadro da agressão à Ucrânia. Em resposta, autoridades rusas abriram processo contra o Procurador-Chefe Karim Khan e outros magistrados, resultando, em 2025, em condenações em contumácia por “ação penal injusta contra cidadãos russos”.

De modo simétrico, a Corte adotou, em 2024, medidas processuais — incluindo mandado de prisão — relativas ao primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, no contexto das operações em Gaza. Em fevereiro de 2025, a Casa Branca respondeu com um decreto executivo que impôs sanções direcionadas contra membros da CPI, tais como congelamento de bens, proibição de entrada no território americano e restrições a colaboradores da instituição.

Os organizadores exigem que a Comissão Europeia reaja com medidas concretas para neutralizar efeitos extraterritoriais e para preservar a independência da Corte. A primeira proposta formalizada durante o ato é a ativação do chamado Blocking Statute — o Regulamento da UE 2271/96 — instrumento jurídico concebido para proteger entidades e cidadãos europeus contra aplicações extraterritoriais de sanções adotadas por terceiros. Os ativistas sustentam que a legislação europeia pode ser interpretada de modo a blindar a cooperação com a CPI e impedir que medidas coercitivas externas desestabilizem seus mecanismos.

Além desse pedido jurídico, a mobilização reclama uma voz política clara da Comissão e medidas de proteção para funcionários, juízes e procuradores da Corte, sem contudo descurar a neutralidade institucional que garante o funcionamento imparcial da justiça internacional.

Na minha leitura deste movimento, que observo como analista, trata-se de um movimento que interliga legalidade e geopolítica: em um tabuleiro onde as grandes potências testam limites e jurisdições, a defesa da CPI é, em essência, uma defesa dos princípios que sustentam a ordem jurídica internacional. Se a União Europeia se abstiver, corre-se o risco de permitir um redesenho de fronteiras invisíveis ao redor da justiça transnacional — erosões graduais mas estratégicas que, a longo prazo, enfraquecem a arquitetura de responsabilização global.

O apelo em Bruxelas é, portanto, tanto jurídico quanto político: cobrar da presidente da Comissão uma estratégia que combine instrumentos legais como o Blocking Statute, garantias de proteção a servidores da Corte e uma posição pública firme em prol da independência judicial internacional. Em termos estratégicos, é um movimento que visa recuperar espaço de autonomia para o direito internacional, evitando que a tectônica de poder entre Estados-sucesso determine a sobrevivência de instituições multilaterais.

Marco Severini — Espresso Italia