Conselho da Europa define novo quadro sobre migração: ênfase em rimpatrio, controle de fronteiras e cooperação operacional

Conselho da Europa adota declaração sobre migração, reforçando repatriamentos, controle de fronteiras e cooperação operacional entre 46 países.

Conselho da Europa define novo quadro sobre migração: ênfase em rimpatrio, controle de fronteiras e cooperação operacional

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Conselho da Europa define novo quadro sobre migração: ênfase em rimpatrio, controle de fronteiras e cooperação operacional

Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, com prudência estratégica, parte do tabuleiro europeu da migração, os ministros dos Negócios Estrangeiros dos 46 Estados-membros do Conselho da Europa adotaram, em 15 de maio de 2026, uma declaração política sobre migração durante a sessão anual do Comitê de Ministros em Chişinău, Moldávia.

O texto reafirma o princípio básico segundo o qual os Estados possuem o direito soberano de regular a entrada e a permanência de estrangeiros em seu território: “Gli Stati hanno l’indiscutibile diritto sovrano di decidere e controllare l’ingresso e la permanenza dei cittadini stranieri nel loro territorio”. Ao mesmo tempo, a declaração sublinha a obrigação contínua de observância da Convenção Europeia dos Direitos Humanos e das decisões da Corte Europeia dos Direitos Humanos de Estrasburgo.

Entre as linhas-mestras do documento estão a autorização clara para Estados elaborarem políticas nacionais que possam incluir mecanismos como a tramitação de pedidos de proteção internacional em terceiros países, a criação de “centros de repatriação” em países terceiros e uma cooperação mais estreita com Estados de trânsito. O objetivo declarado é permitir respostas mais ágeis e eficazes a fluxos migratórios, incluindo medidas destinadas a desencorajar a migração irregular e a facilitar os repatriamentos das pessoas que não necessitam de proteção internacional.

O secretário-geral do Conselho da Europa, Alain Berset, justificou a iniciativa como uma constituição de consenso: “È fondamentale aver riunito Paesi da tutta Europa, con punti di vista ed esperienze diverse, per concordare una posizione comune su come il sistema dovrebbe funzionare al meglio”. Tradução livre: reunir Estados com experiências distintas cria um alinhamento prático que orientará tanto o trabalho da organização quanto as decisões nacionais e judiciais.

Importante notar a genealogia desta declaração. Trata-se do desdobramento de uma iniciativa lançada por Itália e Dinamarca em maio de 2025, que já contava com o apoio de Áustria, Bélgica, República Checa, Estónia, Letónia, Lituânia e Polónia. Originalmente, esses países manifestaram reservas quanto a determinados entendimentos jurisprudenciais da Corte Europeia em matérias migratórias — uma tensão que o texto busca abordar conciliando soberania estatal e obrigações convencionais.

Ao mesmo tempo em que reafirma o papel central da Convenção Europeia dos Direitos Humanos e da Corte de Estrasburgo, a declaração reconhece que surgiram desafios novos ou amplificados desde a redação original da Convenção, alguns deles imprevistos à época. Essa admissão tem a densidade de um reconhecimento tectônico: os alicerces jurídicos permanecem, mas as pressões e as dinâmicas exigem instrumentos adaptativos.

Na linguagem da diplomacia de alto nível, o documento privilegia duas linhas complementares: consolidar procedimentos justos e eficientes de repatriação e intensificar a cooperação operacional entre Estados para prevenção da migração irregular. Em termos de geopolítica prática, é um movimento para fortalecer laços com países terceiros e coordenar ações que reduzam os fluxos desordenados — um tipo de “redenho de fronteiras invisíveis” por vias administrativas e cooperativas.

Como analista, vejo esta declaração como um passo calculado: não é a ruptura com os princípios de direitos humanos, mas uma tentativa de recalibrar o jogo jurídico-institucional frente a desafios contemporâneos. No tabuleiro europeu, trata-se de um movimento decisivo que busca ao mesmo tempo preservar alicerces e ganhar espaço operacional para políticas nacionais. Resta observar como tribunais, legisladores e parceiros extracomunitários reagirão a este novo mapa de intenções.