Dez anos do terremoto em Amatrice: mais de 8.579 famílias ainda fora de casa
Dez anos do terremoto em Amatrice: 8.579 famílias ainda vivem em SAE; reconstrução incompleta revela falhas administrativas e desafios sociais.
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Dez anos do terremoto em Amatrice: mais de 8.579 famílias ainda fora de casa
Sou Marco Severini. Ao observar este capítulo italiano com a calma de quem esquadrinha um tabuleiro de xadrez geopolítico, constato que o tempo não apagou completamente as linhas do desastre. Há dez anos, na madrugada de 24 de agosto de 2016, o terremoto que atingiu Amatrice e municípios vizinhos provocou 303 mortos, mais de 300 feridos e cerca de 41 mil desalojados. O sismo de magnitude 6 deixou o borgo quase aniquilado e um prejuízo estimado em cerca de 4 bilhões de euros.
Na data em que se recorda a tragédia, as cerimônias mantêm o ritual da memória: uma fiaccolata e 239 badaladas de sino — um toque por cada vítima do território — marcam um luto coletivo que convive com as exigências práticas da reconstrução. A primeira-ministra Giorgia Meloni participou das homenagens, visitando o Monumento às Vítimas e presenciando a missa celebrada pelo cardeal Matteo Zuppi.
Porém, ao lado do gesto simbólico, o relatório da ActionAid intitulado "Dieci anni dopo: i dati raccontano" revela o estado concreto das operações: são 8.579 as famílias ainda fora de casa, alojadas em SAE — as Soluções Habitacionais de Emergência. Em termos de obra pública, dois terços dos projetos não entraram em fase de execução. Dos mais de 3.600 intervenções programadas, num montante de 4,8 bilhões de euros, 66,3% permanecem em etapas anteriores ao início dos trabalhos.
O diagnóstico administrativo explica parte da estagnação. Segundo o prefeito de Amatrice, Giorgio Cortellesi, a geografia do território — 69 frações com numerosas edificações — é por si só um desafio. Acrescentou-se, logo após o sismo, uma decisão operacional que teve efeitos duradouros: a remoção rápida de escombros sem a devida demarcação dos perímetros dos imóveis. Recuperar os limites das propriedades levou cinco anos, como um trabalho arqueológico tardio sobre o próprio tecido urbano.
Patrizia Caruso, responsável pela Unidade Resiliência da ActionAid Itália, sublinha que números de reconstrução não são tecnicalidades distantes: uma escola que não volta a funcionar, um município que permanece fechado, um serviço de saúde insuficiente são fatores que influenciam a decisão das famílias em permanecer ou partir. A reconstrução é, portanto, um eixo de estabilidade social e demográfica, não apenas um investimento físico.
Do outro lado do tabuleiro, o comissário extraordinário para a reconstrução, Guido Castelli, destaca sinais positivos: a taxa de despovoamento caiu de 0,8% para 0,3%, o saldo migratório tornou-se positivo e, em 2025, registaram-se 106 mil vínculos de trabalho ativados. Em agosto, o governo aprovou medidas visando o encerramento do estado de emergência nacional em Amatrice até 31 de dezembro de 2026 — um movimento decisivo, político e administrativo, que fecharia um ciclo emergencial e abriria outro, de gestão ordinária.
O balanço é claro e ambivalente: avanços econômicos e de emprego coexistem com alicerces frágeis da reconstrução física e institucional. Dez anos depois, Amatrice permanece como um tabuleiro de poder onde cada peça — legislação, projeto, propriedade, memória — precisa ser alinhada com precisão se se pretende um retorno verdadeiramente sustentável. A lição é geopolítica e humana: reconstruir territórios é também redesenhar fronteiras invisíveis de confiança entre o Estado, as comunidades e o tempo.

