Crise nos corredores europeus: Irlanda exige retornos, Itália prende a Sea Watch 5 em Nápoles
Irlanda exige retornos, Itália prende a Sea Watch 5 em Nápoles e tensão com Alemanha cresce sobre o novo Pacto de imigração da UE.
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Crise nos corredores europeus: Irlanda exige retornos, Itália prende a Sea Watch 5 em Nápoles
Por Marco Severini — As tensões entre a Itália e outros Estados-Membros da União Europeia intensificam-se no bojo da implementação do novo Pacto sobre a imigração. Em mais um movimento de pressão para aplicar regras mais rígidas, a Irlanda tornou-se o sétimo país a solicitar o retorno de requerentes de asilo para os Estados de primeiro desembarque, exigindo igualmente o cumprimento estrito das normas relativas aos chamados movimentos secundários.
O foco mais aceso do confronto diplomático, porém, concentra-se com a Alemanha. Berlim defende as riammissioni dos chamados dublinanti — migrantes que chegaram primeiro a um Estado-Membro e depois se deslocaram sem ter apresentado pedido de asilo — enquanto Roma tem criticado com firmeza as operações no Mediterrâneo realizadas por embarcações de ONGs alemãs.
Em Nápoles foi adotado um provvedimento administrativo que determina 45 dias de retenção e uma multa de 7.500 euros à embarcação Sea Watch 5, acusada de não ter colaborado com a guarda costeira líbia, conforme informaram fontes oficiais. O ministro do Interior, Matteo Piantedosi, reiterou que as operações de busca e salvamento devem ser coordenadas única e exclusivamente pelos Estados competentes, sublinhando preocupações com a legalidade e a autoridade no mar.
A ONG alemã, por sua vez, denuncia a perigosidade das autoridades líbias e anuncia recurso à decisão. Segundo os relatos da organização, foram informadas as autoridades italianas e países europeus limítrofes, mas não o centro de coordenação líbio, descrito como uma autoridade 'fantoche' que, ao legitimar interlocutores locais, teria permitido que homens armados ameaçassem a tripulação pouco depois do resgate.
No plano diplomático, está agendada para o mês que vem uma reunião bilateral entre o ministro italiano e o seu homólogo alemão, Alexander Dobrindt, com o objetivo de costurar entendimentos sobre riammissioni e o papel das ONGs. Entre as propostas em discussão figura um mecanismo de compensação que relacionaria as transferências exigidas entre Estados e as pessoas socorridas por embarcações privadas — um instrumento concebido para ajustar equilibros no tabuleiro europeu da migração.
Piantedosi reafirmou a visão italiana segundo a qual a atividade das ONGs pode funcionar como um pull factor para fluxos irregulares. Em resposta às críticas da oposição, que descreveu sua ação como confusa, o ministro defendeu a eficácia do governo: redução dos desembarques e duplicação dos rimpatri graças a acordos com a Tunísia e a Líbia são, segundo ele, sinais tangíveis de execução de política.
Quanto aos dublinanti, o titular do Viminale destacou a mudança de postura do Executivo: ao contrário do que afirma ter sido a inércia de governos anteriores, Roma alegaria ter bloqueado o retorno de 80 mil migrantes, reduzindo as transferências efetivas para números marginalizados.
Oficialmente, a Itália vê no novo Pacto da UE uma alteração paradigmática que introduz uma solidariedade estrutural e obrigatória para os países de primeiro ingresso. No entanto, as discordâncias sobre a responsabilidade efetiva pelos migrantes colocam em risco esse desenho. A arquitetura da cooperação enfrenta assim alicerces frágeis: após anos de tolerância prática em relação aos movimentos secundários, o bloco terá de negociar não apenas regras, mas também confiança mútua e mecanismos de fiscalização.
Na cartografia contemporânea das políticas migratórias, movimentos como este redesenham fronteiras invisíveis de responsabilidade e influência. Se não forem encontrados compromissos claros, corre-se o risco de fragmentar a tectônica de poder europeia sobre um tema sensível, abrindo brechas para procedimentos de infração contra Estados que resistam às novas obrigações.

