Montenegro avança rumo à União Europeia, mas cresce o temor por interferências da Sérvia
Montenegro avança rumo à UE, mas crescem temores de interferências da Sérvia que podem complicar o processo de adesão e a estabilidade regional.
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Montenegro avança rumo à União Europeia, mas cresce o temor por interferências da Sérvia
Por Marco Severini — Enquanto Montenegro se posiciona como o candidato mais próximo da entrada na União Europeia, em Bruxelas acende-se uma apreensão estratégica: a possibilidade de que a Sérvia busque retardar ou moldar esse processo por meio de ações de interferência no terreno político e identitário do país. É um movimento que lembra um golpe no tabuleiro — sutil, persistente e com impactos de longa duração sobre os alicerces frágeis da diplomacia regional.
O contraste entre os percursos de Belgrado e Podgorica é hoje nítido. Enquanto Podgorica aproxima-se de um marco histórico na sua adesão à União Europeia, o caminho da Sérvia encontra-se estagnado: Belgrado ainda não abriu todos os clusters negociais com a UE e, no mês passado, oito Estados‑membros bloquearam a sua tentativa mais recente de avançar.
Antes da votação em plenário, em julho, sobre a avaliação anual dos progressos dos países candidatos, o eurodeputado Tonino Picula (Croácia/S&D) assinalou: 'Vemos ações do governo sérvio e de partidos de oposição que complicam a situação interna em Montenegro'. Três funcionários da Comissão Europeia e de diferentes governos nacionais confirmaram à reportagem que estão cientes de tentativas de interferência nos assuntos montenegrinos — um facto que transforma um processo técnico numa questão de alta sensibilidade geopolítica para a UE.
Para Jovana Marović, ex-vice‑primeira‑ministra do país, a estratégia de Belgrado é clara: 'A Sérvia faz tudo para moldear o Montenegro desde dentro, influenciando aquilo que somos como Estado'. Segundo Marović, algumas iniciativas visam especificamente obstruir a adesão do país, entre elas a tentativa de consagrar a língua sérvia como oficial ao lado do montenegrino, numa emenda constitucional que teria efeitos simbólicos e práticos profundos.
As fricções também surgiram numa proposta contestada de renomear a Biblioteca Nacional de Podgorica. A instituição, atualmente dedicada a Radosav Ljumović — figura reconhecida pela sua trajetória antifascista — teria sido rebatizada em homenagem a Marko Miljanov, figura histórica associada a tradições montenegrino‑sérvias. Sem questionar a relevância histórica de Miljanov, a crítica de Marović aponta para um padrão: a gradual supressão do património antifascista em favor de políticas identitárias que alimentam divisões.
'A Sérvia tenta sistematicamente provocar cisões étnicas', afirmou Marović, lembrando também iniciativas locais de forças pró‑sérvias para reverter o reconhecimento montenegrino do Kosovo. A dinâmica é dupla: ações oficiais e culturais que, somadas, compõem uma estratégia de influência capaz de alterar o equilíbrio político interno.
Contudo, até agora, esses esforços não lograram descarrilar o processo de adesão. A classe política montenegrina demonstrou unidade — evidenciada pela larga maioria que aprovou, em julho, o início do procedimento de reforma constitucional: 74 votos a favor entre 77 deputados; apenas um partido filo‑sérvio mais radical colocou-se em oposição. Essa coesão é, para a UE, um alívio tático em meio à tectônica de poder dos Balcãs.
Para a União Europeia, o desafio é múltiplo: gerir um processo de integração que exige reformas e estabilidade interna ao mesmo tempo em que se evita tornar‑se palco de rivalidades bilaterais. A posição de Bruxelas no meio deste eixo – um corredor estreito entre dois atores com laços históricos e ambições distintas – exige prudência estratégica e uma atenção continuada aos movimentos no tabuleiro regional.
Como analista, vejo nesta conjuntura um teste à capacidade da UE de proteger o seu processo de alargamento sem alienar actores regionais essenciais. A estabilidade dos alicerces institucionais e a defesa do pluralismo identitário em Podgorica serão determinantes para que a entrada do Montenegro na União Europeia seja uma pedra de assento, não um ponto de ruptura, no redesenho das fronteiras invisíveis dos Balcãs.

