Dos corsários aos contractors: o retorno dos mercenários do mar e o papel da Itália
Ifri alerta para o retorno dos mercenários do mar; empresas italianas de segurança marítima atuam em áreas de risco diante de pirataria e drones.
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Dos corsários aos contractors: o retorno dos mercenários do mar e o papel da Itália
Num período em que seis navios comerciais foram sequestrados por piratas somalis desde abril, e com 38 episódios de pirataria ou roubo armado registrados globalmente nos primeiros seis meses de 2026, o teatro marítimo mundial volta a exigir atenção estratégica. Soma-se a isso uma nova ameaça que vem do alto — drones e mísseis — e embarcações não tripuladas, transformando a proteção de rotas num problema de complexidade inédita. É neste cenário que um estudo recente do Ifri (Instituto Francês de Relações Internacionais) recua no tempo e traça o retorno das companhias privadas na segurança marítima.
A tese do Ifri é direta: o reaparecimento dos chamados mercenários do mar não seria uma anomalia do nosso tempo, mas o ressurgimento de um modelo que, por séculos, acompanhou a guerra e o comércio sobre os mares. Historicamente, Estados e comerciantes recorreram a atores privados para proteger interesses e rotas quando os alicerces militares estatais não chegavam. Hoje, essa lógica reaparece não por nostalgia, mas por necessidade — navios que cruzam o Corno de África, o Oceano Índico, o Estreito de Bab al-Mandeb e o Golfo de Aden enfrentam ameaças que excedem a capacidade de presença contínua das marinhas nacionais.
Casos recentes encapsulam o problema: a petroleira Sibu 1 foi tomada no dia 20 de agosto ao largo do Iêmen por seis piratas e levada em direção à costa do Puntland. Poucos dias antes, o cargueiro Lutuf foi apreendido próximo à Somália com dez tripulantes e, detalhe relevante, duas guardas de segurança sérvias embarcadas. A presença de pessoal privado armado a bordo de mercantes confirma a pergunta central do estudo do Ifri: quem protege os navios quando as marinhas não estão em número suficiente para cobrir todas as rotas críticas?
A resposta prática e crescente é o mercado. E a Itália já ocupa posição ativa nesse movimento. No país existem empresas autorizadas que fornecem segurança armada a navios mercantes italianos transitando por áreas de risco. Não se trata, convém sublinhar, de exércitos privados ao estilo das grandes PMCs anglo-saxãs, mas de operadores especializados em maritime security, muitos dos quais recrutam ex-militares e oficiais. Entre as empresas italianas citadas figuram Praesidium International, SKP Vigilanza e Metro Security Express. Seus serviços vão desde escolta e proteção armada a bordo até avaliação de risco e formação de tripulações.
As zonas de atuação concentram-se onde o tráfego comercial é mais vulnerável: Oceano Índico, Corno de África, Golfo de Aden, Golfo da Guiné e áreas do Sudeste Asiático. Nestas águas, a combinação entre pirataria tradicional — ainda viva em certos pontos — e novos instrumentos de ataque cria um quadro onde a presença privada tende a crescer como solução prática, embora problemática em termos legais e estratégicos.
Do ponto de vista da geopolítica, o retorno das companhias privadas para a segurança do mar representa um movimento tectônico: redesenha fronteiras invisíveis de responsabilidade e influência. Quando atores não estatais assumem a defesa de rotas, a autoridade exclusiva do Estado sobre o uso da força é fragmentada, e surgem zonas de ambiguidade jurídica e de riscos de escalada. É um movimento que exige — para evitar crises e abusos — regras claras, cooperação multinacional e um quadro legal que regule emprego da força, responsabilidade e prestação de contas.
Como analista, vejo este fenômeno como um "movimento decisivo no tabuleiro" das relações internacionais: prático, previsível e ao mesmo tempo com potenciais consequências estratégicas. A presença crescente de empresas italianas na segurança marítima revela tanto a capacidade de resposta privada diante de falhas temporárias do Estado quanto os alicerces frágeis da diplomacia quando o comércio global é ameaçado. O desafio, portanto, é conjugado: preservar a liberdade de navegação, garantir proteção efetiva às tripulações e às cargas, e ao mesmo tempo reafirmar princípios de responsabilização e de coordenação entre marinhas, governos e operadores privados.
Em suma, o retorno dos mercenários do mar não é apenas uma curiosidade histórica reencenada. É uma adaptação pragmática às lacunas de segurança no presente, com implicações profundas para a ordem marítima futura — e a Itália já se posiciona como um ator operativo neste redesenho.

