Nasce o Rhine Group: Draghi e Patrick Collison unem forças para recuperar a competitividade da Europa
Rhine Group: Draghi e Patrick Collison lideram esforço para transformar o relatório de 2024 em reformas que revertam a perda de competitividade europeia.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Nasce o Rhine Group: Draghi e Patrick Collison unem forças para recuperar a competitividade da Europa
Por Marco Severini — Em um movimento que remodela o tabuleiro estratégico europeu, Mario Draghi retorna ao centro do debate público para colocar a competitividade da Europa como prioridade de Estado. Ao seu lado, numa parceria simbólica e prática, está Patrick Collison, cofundador e CEO da Stripe: ambos são copresidentes do recém-criado Rhine Group, lançado em agosto de 2026 com um propósito claro e ambicioso — transformar as análises do relatório Draghi sobre competitividade em um plano real de reformas.
Na liderança operacional do projeto encontra-se o economista espanhol e ex-eurodeputado Luis Garicano, que reúne uma equipe multidisciplinar capaz de articular mundos tradicionalmente separados — economia, universidade, finanças, indústria, tecnologia e política. Essa confluência pretende atuar como ponte entre diagnóstico e execução: não mais apenas mapas do problema, mas rotas concretas para avançar no terreno.
O ponto de partida do Rhine Group é uma fotografia inquietante. Segundo o novo fórum, entre as cinquenta maiores empresas tecnológicas globais apenas quatro são europeias. Nos vetores que vão determinar o crescimento das próximas décadas — inteligência artificial, plataformas digitais, pesquisa científica e tecnologias emergentes — a Europa corre o risco de iniciar a partida com peças insuficientes sobre o tabuleiro.
Para Draghi e Collison, a questão ultrapassa o campo industrial: trata-se do peso econômico e estratégico do continente. Um crescimento anêmico reduz a capacidade de financiar defesa, saúde, previdência, educação, transição climática e proteção social. O vencimento dessa estagnação não é apenas econômico; é político e, sobretudo, geopolítico. Em termos de geostratégia, é como perder tempo em uma partida decisiva enquanto adversários consolidam posições no centro do tabuleiro.
A tese central do grupo é direta e de caráter realista: o declínio europeu não é inevitável, mas exige uma aceleração estrutural das reformas. O desafio do Rhine Group é preencher o vazio entre diagnóstico e execução — traduzir as mais de 170 propostas do relatório de 2024 em medidas factíveis, alinhadas com os alicerces institucionais europeos e com as dinâmicas políticas nacionais.
O relatório Draghi, apresentado à Comissão Europeia em 2024, já havia mapeado fragilidades essenciais — da política energética às infraestruturas digitais, dos mercados de capitais à produtividade e defesa. Tornou-se referência no debate sobre competitividade, mas a pergunta persiste: como converter recomendações em reformas implementáveis, com custo político e calendário real?
O Rhine Group não pretende substituir a Comissão Europeia nem usurpar o papel dos governos nacionais. Sua razão de ser é outro: criar um fórum de confronto técnico-político, onde lideranças de setores distintos modelem reformas viáveis. É a arquitetura de um espaço consultivo que visa reduzir a assimetria entre análise e decisão, atuando como catalisador para consensos difíceis.
Inserido numa tectônica internacional em transformação — onde o sistema comercial é menos previsível, a proteção estratégica menos automática e os eixos de influência são redesenhados — o Rhine Group emerge como tentativa de reposicionar a Europa. Não se trata de um gesto midiático, mas de uma estratégia com intenção clara: recompor as peças fundamentais para que o continente recupere iniciativa estratégica.
Em linguagem de tabuleiro: é um movimento para ocupar o centro, reforçar as defesas e abrir linhas de avanço, antes que a inércia consolide desvantagens difíceis de reverter. O sucesso dependerá da capacidade do grupo de converter conhecimento em poder de decisão — e da vontade política dos Estados-membros de jogar a partida em conjunto.

