UE: 11 países pedem fim dos vetos que paralisam a política externa do bloco

Onze países da UE pedem eliminar vetos para desbloquear a política externa e ativar a cláusula passerelle, equilibrando legitimidade e eficácia.

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UE: 11 países pedem fim dos vetos que paralisam a política externa do bloco

Por Marco Severini — Um grupo de 11 Estados-membros da União Europeia enviou uma carta à Alta Representante Kaja Kallas pedindo o fim dos vetos ostruccionistas que, nas últimas temporadas, têm paralisado a ação externa do bloco. A mensagem, vista pela Euronews, reclama que o princípio da cooperação leal deve prevalecer quando o objetivo for mobilizar a influência comum da União.

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"A cultura do consenso é fonte de legitimidade para a União, e por isso continuamos a buscar consensos sempre que possível", escrevem os signatários. "Mas devemos garantir que essa cultura favoreça a ação comum em vez de a impedir: teremos legitimidade, mas não força, se permanecermos paralisados."

Assinam a carta a Áustria, a Dinamarca, a Bélgica, a Finlândia, a França, a Alemanha, o Luxemburgo, os Países Baixos, a Romênia, a Espanha e a Suécia. A Alemanha, maior Estado-membro, aparece na linha de frente do apelo por reformas na política externa comunitária.

O documento sublinha que o cenário internacional sofreu um redesenho dramático — marcado por competição estratégica, instabilidade crescente e tentativas de minar a ordem internacional baseada em regras — e que, nesse contexto, a capacidade da UE de defender valores e interesses depende de mobilização rápida e eficaz do seu peso político, económico e diplomático conjunto.

Hoje, a política externa da União segue a regra da unanimidade: um único Estado pode, a qualquer momento, imobilizar os restantes 26 parceiros. Essa dinâmica repetiu-se nos anos de Viktor Orbán como primeiro-ministro da Hungria. Orbán utilizou repetidamente o direito de veto para obter concessões e avançar interesses nacionais; o episódio mais notório deste ciclo foi o bloqueio repentino, no início deste ano, de um empréstimo de 90 mil milhões de euros destinado à Ucrânia. O veto surgiu no âmbito de uma disputa aparentemente distinta relacionada com o oleoduto Druzhba.

Os signatários, aprendendo com as lições desse período, delineiam cinco princípios orientadores que, alegam, já dispõem de enquadramento jurídico existente e apenas exigem vontade política para serem postos em prática. Entre as ferramentas em debate está a ativação da chamada "cláusula passerelle", prevista no artigo 31, que permitiria transitar da unanimidade para a votação por maioria qualificada (MQP) em certas matérias externas. A proposta contempla uma aplicação caso a caso, em vez de uma mudança total e imediata das regras.

Os defensores da medida argumentam que a passagem para MQP tornaria as decisões mais céleres e evitaria vetos que travam respostas comuns a crises. Os resistentes apontam riscos para a coesão e para a prerrogativa dos Estados de proteger interesses vitais — um choque clássico entre legitimidade processual e capacidade de atuação.

Do ponto de vista estratégico, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro da diplomacia europeia: transformar o consenso em poder operativo sem desmantelar os alicerces da soberania nacional é um problema de arquitetura institucional e de cartografia de influências. A incógnita permanece sobre até que ponto os Estados estarão dispostos a trocar margem de veto por efetividade.

Em última instância, a iniciativa dos 11 países sinaliza uma inquietação real com a tectônica de poder em curso: a União precisa de mecanismos que lhe permitam reagir com velocidade e unidade, sem perder a legitimidade que sustenta sua ação. O quadro jurídico, afirmam os signatários, já existe — falta coragem política para aplicá-lo.

Esta proposta inaugura um debate estratégico profundo: manter intocada a unanimidade pode preservar o peso simbólico de cada capital, mas arrisca transformar a política externa em uma galeria de vetos; abandonar a unanimidade sem salvaguardas, por outro lado, pode fragilizar os alicerces da cooperação. O desafio é encontrar um movimento de xadrez institucional que permita à União agir com força quando o tabuleiro assim o exigir.

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