Von der Leyen: UE «forte e precária», aposta na autonomia estratégica e na eletrificação do futuro
Von der Leyen defende uma UE forte, porém precária, com reforma do Mercado Único e aposta na eletrificação e autonomia estratégica até 2040.
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Von der Leyen: UE «forte e precária», aposta na autonomia estratégica e na eletrificação do futuro
Por Marco Severini — Em um discurso denso e calculado, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, expôs em Estrasburgo, no dia 16 de setembro de 2026, uma síntese da posição estratégica da União Europeia: uma entidade ao mesmo tempo forte e precária. A sessão, que durou cerca de uma hora e dez minutos, foi pontuada por mais de vinte aplausos, entre os quais quatro standing ovations. Curiosamente, os Estados Unidos e seu presidente não foram mencionados; por outro lado, as palavras clima e difesa foram repetidas com ênfase — sete e doze ocorrências, respectivamente — sinalizando prioridades claras.
Von der Leyen iniciou seu discurso descrevendo a era atual como “excecional”, uma época de amplas possibilidades, mas também de perigos palpáveis. Parafraseando Charles Dickens, afirmou que a União “nunca foi tão forte, e, ao mesmo tempo, pode parecer mais precária do que nunca”. A leitura que propôs é de um tabuleiro em mutação: a tectônica de poder exige agora uma Europa que seja independente e capaz de agir.
Três figuras simbólicas, convocadas como inspiração, estruturaram parte do relato político: Rafa, da Polônia, e Pekka, da Finlândia, fundadores de uma start-up tecnológica; a família do piloto anti-incêndio dinamarquês Rune Kyndal, tragicamente falecido, cuja lembrança mereceu a primeira standing ovation; e Sasha, jovem ginasta ucraniana que perdeu a perna esquerda em um ataque, voltou a treinar e a conquistar medalhas — recebendo a segunda homenagem em pé do hemiciclo. A presidência também mencionou a presença, no plenário, do convidado referido pela Comissária como o "primeiro-ministro canadense, Mark Carney", que foi ovacionado e serviu de elo para reiterar que a União segue acreditando em alianças externas.
No núcleo programático, von der Leyen definiu um horizonte temporal e operacional: concluir, até o final do próximo ano, a profunda reforma do Mercado Único, batizada como “Uma Europa, um mercado”. A reforma é apresentada como a nova cartilha da competitividade. Para isso, propõe acelerar procedimentos administrativos e reduzir a burocracia, com medidas concretas sobre autorizações, licenças, conexões à rede e decisões de financiamento. A mensagem aos Estados-membros foi clara: Bruxelas fará sua parte, mas é chegada a hora de os governos nacionais desmontarem seus próprios entraves administrativos.
Outro eixo do discurso foi a transição energética: a presidente pressionou o acelerador em favor de uma energia limpa, acessível e produzida internamente. Com uma postura de neutralidade tecnológica, citou renováveis, nuclear, biometano e outras fontes como componentes complementares desse esforço. Von der Leyen sublinhou a urgente necessidade de garantir a disponibilidade da eletricidade produzida e por isso qualificou como imprescindível o pacote sobre redes — para acelerar investimentos, ligações à rede e o desenvolvimento de sistemas de armazenamento. Em linhas estratégicas, o futuro europeu foi descrito como essencialmente elétrico, com a meta de raddoppiare la quota di elettricità entro il 2040 — objetivo que traduz um redesenho das prioridades industriais e geopolíticas do continente.
O tom do pronunciamento foi simultaneamente inspirador e pragmático: Von der Leyen converteu narrativas pessoais em âncoras políticas e traçou um roteiro de reformas institucionais e infraestruturais. Na minha leitura, como analista que observa o tabuleiro estratégico, trata-se de um movimento que busca solidificar alicerces frágeis da diplomacia europeia — uma tentativa de consolidar autonomia operacional sem romper alianças clássicas. A verdadeira partida começará agora, nos ministérios e nas linhas de financiamento, onde serão jogadas as próximas peças decisivas.
Em suma, a mensagem foi clara e medida: a União é forte na sua capacidade de projeto, mas precária nas suas dependências internas e externas. A aposta de Von der Leyen é por uma Europa que se torne menos dependente, mais elétrica e mais capaz de transformar histórias individuais em políticas públicas de largo alcance — um movimento que, no grande tabuleiro do século XXI, pretende preservar equilíbrio e influência.

