Rossellini, Magnani e Bergman: a 'Guerra dos Vulcões' que reescreveu o cinema

Livro reconta a colisão entre Rossellini, Magnani e Bergman nas ilhas eólicas durante as filmagens de Stromboli e Vulcano. História e paixão.

Rossellini, Magnani e Bergman: a 'Guerra dos Vulcões' que reescreveu o cinema

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Rossellini, Magnani e Bergman: a 'Guerra dos Vulcões' que reescreveu o cinema

Por Erica Santini — Há histórias que cheiram a sal, a pólvora e a celuloide — e poucas têm o mesmo poder de fascínio quanto a trilogia humana e cinematográfica que nasceu entre as ilhas eólicas. No novo volume de Alberto Anile e Maria Gabriella Giannice, La guerra dei vulcani (Il Saggiatore, pp. 346, €24), reencontramos o encontro e o choque entre três nomes que soam como acordes profundos do nosso imaginário: Roberto Rossellini, Anna Magnani e Ingrid Bergman.

Em 1949, a geografia e a paixão conspiraram: a poucos quilômetros de distância, sobre as ilhas de Stromboli e Vulcano, foram rodados dois filmes aparentemente irmãos — Stromboli, dirigido por Rossellini, e Vulcano, assinado por William Dieterle — e nasceu uma narrativa que ia muito além da produção cinematográfica. Uma história de amor que terminava e outra que começava, um assédio incessante da imprensa, escândalos públicos, segredos guardados entre takes e percalços que atravessaram as praias e os estúdios.

O livro narra esses meses com a cadência de um romance e a precisão de uma pesquisa histórica: documentos, cartas, reportagens e memórias costuram a cena — a luz dourada nas pedras, o cheiro do mar e o ruído distante do vulcão — e restitui o drama íntimo e artístico daqueles dias. É também uma reedição que chega após 26 anos da 1ª edição e 16 da 2ª (ambas pela Le mani), agora revista e ampliada pela Il Saggiatore, coincidindo com datas simbólicas: 120 anos do nascimento de Rossellini e 80 anos da apresentação de Roma, città aperta em Cannes.

O que torna essa narrativa tão irresistível é a justaposição entre o cinema como obra coletiva e o cinema como território de desejo. Magnani, com sua força telúrica; Bergman, com a luz nórdica que atravessou os mares; e Rossellini, autor e provocador, desenharam um triângulo que transitou entre a arte e o íntimo. As ilhas, com sua geografia severa, transformaram-se em cenário e personagem, espelho das paixões e dos conflitos humanos.

Para quem ama os bastidores e o perfume das grandes paixões cinematográficas — e para quem aprecia a capacidade do cinema em traduzir o tempo nas paredes — esta terceira edição oferece não apenas uma releitura mas também novos documentos e reflexões que enriquecem a compreensão de um episódio que marcou a história do cinema italiano e mundial.

Leitura recomendada para quem quer saborear a história por entre os vinhos de um aperitivo cultural: um convite ao Dolce Far Niente, à contemplação das imagens e ao prazer de descobrir os segredos locais que só quem ama a sétima arte conhece.

La guerra dei vulcani — Rossellini, Magnani, Bergman: storia di cinema e d'amore é assinado por Alberto Anile, crítico e historiador do cinema, e por Maria Gabriella Giannice, escritora, roteirista e jornalista da ANSA. Uma obra que devolve ao leitor o sabor do tempo e a textura das paixões que moldaram o cinema moderno.