Gilberto Simoni: “A inteligência artificial está apagando a fantasia do ciclismo”
Gilberto Simoni critica a inteligência artificial no ciclismo: diz que a tecnologia apaga a fantasia e favorece os mais ricos. Lembranças e um único arrependimento.
RESUMO ✦
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Gilberto Simoni: “A inteligência artificial está apagando a fantasia do ciclismo”
Gilberto Simoni, bicampeão do Giro d'Italia (2001 e 2003), concedeu uma entrevista incisiva à Espresso Italia antes da crono de Viareggio e lanterna uma reflexão sobre o futuro do esporte. Aos 54 anos, o ex-pelotão lembra com ternura o tempo em que as corridas eram guiadas mais pela intuição do que por algoritmos e prevê um horizonte em que a tecnologia pode limitar a imaginação dos atletas.
"Se se aposta tudo na Inteligência Artificial, pedalar no ciclismo profissional vai ficar como brincar com trenzinhos: trilhos marcados, velocidade pré-determinada e tédio mortal", disse Simoni. "Sinceramente, fico feliz de ter corrido e vencido há 25 anos num mundo mais simples" — uma observação que ilumina a diferença entre o encanto humano da competição e a frieza dos números.
O campeão recorda episódios como os 55 quilômetros da crono de Sirmione-Salò, em 2001, quando se apoiou apenas no seu simples monitor cardíaco e na coragem: "Defendi a maglia frente a Dario Frigo, que era especialista. A planificação científica demais é coisa de perdedores". Para Simoni, a tecnologia que hoje orienta a estratégia em tempo real — do controlo do vento por satélite à gestão dos watt de cada corredor — transformou o papel do diretor desportivo em algo próximo a um operador remoto. "E a fantasia?" pergunta, lembrando que a tomada de decisão impulsiva e o erro também faziam parte do aprendizado.
Comentando a crono de hoje em Viareggio, Simoni manteve a mesma crítica: "A equipe dita que você deve pedalar a 380 watt para atingir o resultado previsto. Mas quem disse que, ao tentar empurrar 20 watts a mais, você não possa ser surpreendentemente mais rápido sem comprometer o final? Se você nunca arrisca, como vai conhecer seus limites? Por que um computador tem de decidir por você?"
Não há, contudo, amargura total no tom do ciclista: "Não guardo arrependimentos, exceto um". Quando solicitado, ele aponta a contrarrelógio do Sestriere no Giro 2000 — prova que acabou nas mãos de Garzelli — como o único episódio que gostaria de reviver. Brincando, confessou que, com um computador a orientar seu esforço, teria conquistado três Giros e não apenas dois. A frase transmite uma combinação de ironia e aceitação, como quem aceita os ventos contrários mas ainda semeia esperança para um debate ético sobre tecnologia e tradição.
As palavras de Gilberto Simoni acendem uma luz sobre um debate crucial: até que ponto a inovação deve guiar a performance, e quando ela começa a apagar as faíscas de criatividade e risco que tornaram o ciclismo tão fascinante? Em tempos de satélites e medidores cada vez mais precisos, sua mensagem é um chamado a cultivar valores humanos e a iluminar novos caminhos para um esporte que precisa tanto de técnica quanto de alma.
Por Espresso Italia.