Nicholas Caglioni: do futebol à estrada — “Nunca usei cocaina, hoje sou camionista e o futebol me repulsa”

Nicholas Caglioni, ex-goleiro suspenso por cocaína, hoje é caminhoneiro na Europa e reafirma sua inocência enquanto critica o futebol moderno.

Nicholas Caglioni: do futebol à estrada — “Nunca usei cocaina, hoje sou camionista e o futebol me repulsa”

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Nicholas Caglioni: do futebol à estrada — “Nunca usei cocaina, hoje sou camionista e o futebol me repulsa”

Por Aurora Bellini — Em uma conversa franca com a Espresso Italia, Nicholas Caglioni, ex-goleiro de Atalanta e Messina, abre as janelas do passado e revela como construiu um novo horizonte depois de uma carreira marcada por controvérsia. Aos 43 anos, ele dirige caminhões por toda a Europa e guarda, entre memórias e cicatrizes, o desapego pelo mundo do futebol profissional moderno.

Caglioni, que foi suspenso por duas temporadas em 2007 após um exame antidoping que apontou presença de cocaina, sempre contestou a punição. Em entrevista exclusiva à Espresso Italia, ele reafirma sua inocência e descreve o impacto da acusação: “Nunca sequer toquei nisso. Amava sair com amigos como qualquer jogador de 20 anos, mas cocaina nunca foi parte da minha vida”.

O episódio que mudou sua trajetória aconteceu após o derby Catania–Messina, partida marcada por uma atmosfera tensa devido à morte do inspetor Filippo Raciti. Caglioni lembra que soube do resultado do exame apenas um mês depois, no dia 11 de março, quando estava em casa: foi então que o diretor esportivo Argurio o comunicou sobre a suposta positividade. “Entrei em pânico. Eu era inocente, por isso preferi ir a julgamento, mesmo sabendo que um acordo teria reduzido a pena para seis meses” — afirma.

O goleiro recorda ainda a solidariedade de companheiros: dividia quarto com Marco Storari, que o considerava um irmão e defendeu sua conduta. Caglioni acredita que pode ter sido alvo de interesses ou episódios de troca de resultados, mas prefere deixar a sombra dos “porquês” para trás e concentrar-se no presente.

Depois da suspensão e do retorno ao futebol em 2009 — passando por Pro Patria, Modena e Crotone, e por clubes como Lecce, Feralpi e Salernitana — veio a decisão de encerrar a carreira em 2019. Hoje, a rotina mudou: de Nembro, na província de Bergamo, ele dirige até Lyon, para a Alemanha e o sul da Itália, transportando principalmente alimentos. “Aprendi a dirigir caminhões após a pandemia. Não foi por necessidade financeira — nunca ganhei fortunas, mas também não desperdicei o que tive. Dirigir me traz calma”, diz.

Sobre o futebol contemporâneo, Caglioni não poupa críticas: “Me faz nojo. Não assisto mais jogos. A vida do profissional virou quase clínica: videoanálises, nutricionistas, psicólogos… me cansei”. Mas ao mesmo tempo confessa carinho pelas lembranças: os treinos, as brincadeiras nos vestiários, os laços forjados em concentrações. São memórias que, como uma luz reservada, iluminam partes boas de um passado complexo.

Apesar dos episódios que marcaram sua carreira, Nicholas Caglioni cultiva um novo ofício e uma serenidade prática. Sua história é um lembrete de como trajetórias podem ser realinhadas — sem apagar os erros, mas sem permitir que eles definam o futuro. Entre estradas e lembranças, ele semeia um recomeço que conjuga dignidade e simplicidade: conduzir, alimentar cidades, seguir em frente.

“Tenho saudade de algumas coisas — os ritos, as piadas, a fraternidade — mas prefiro o meu caminhão. Ilumina novos caminhos”, conclui. Nesta narrativa há menos romanticismo do que a verdade crua de alguém que transformou o desalento em trabalho honesto e autonomia.