Komsomolets: 37 anos depois, reator ainda libera material radioativo de forma intermitente
Estudo em PNAS mostra que o submarino Komsomolets libera radioatividade do reator intermitentemente, sem contaminação significativa no entorno marinho.
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Komsomolets: 37 anos depois, reator ainda libera material radioativo de forma intermitente
Komsomolets, o submarino nuclear soviético afundado em 1989 no Mar da Noruega, continua a emitir de forma intermitente material radioativo a partir do seu reator, segundo um novo estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS). A investigação oferece uma avaliação atualizada e detalhada do estado do relitto e dos riscos ambientais associados, apontando para um quadro de degradação localizada, mas sem sinais de contaminação ampla no ambiente marinho.
A embarcação encontra-se a cerca de 1.680 metros de profundidade. Uma expedição realizada em 2019, conduzida por uma equipe liderada por Justin P. Gwynn, da Norwegian Radiation and Nuclear Safety Authority, e Hilde Elise Heldal, do Institute of Marine Research, empregou veículos subaquáticos operados remotamente para coletar amostras de água, sedimentos e organismos próximos ao casco. As imagens e levantamentos documentaram danos extensos na seção dianteira e na cobertura superior, na área do compartimento de torpedos onde estavam armazenadas as duas ogivas nucleares.
Apesar dos danos estruturais nessa zona, as análises das amostras não detectaram sinais de liberação de plutônio oriundo das ogivas, o que sugere que os sistemas de confinamento das armas permanecem, até agora, eficazes ou não severamente comprometidos. Já no caso do reator, os pesquisadores identificaram um ponto crítico próximo a um tubo de ventilação. Amostras de água marinha coletadas nessa região mostraram presença de isótopos radioativos liberados de forma intermitente. Os rácios isotópicos de plutônio e urânio indicam que o combustível do reator está sofrendo processos de corrosão, um resultado previsível diante das condições extremas e do longo tempo repousando no fundo do mar.
Do ponto de vista ambiental, o estudo ressalta que o impacto parece contido no presente. Os radionuclídeos medidos não evidenciam acumulação significativa nos sedimentos nem na coluna d'água adjacente, cenário atribuído à forte diluição promovida pelas correntes profundas. Essa dinâmica reduz o risco imediato ao ecossistema local, embora não elimine as incertezas em prazos mais longos, quando processos lentos de degradação estrutural podem alterar o padrão de liberação.
Os autores também confirmam que as intervenções de mitigação realizadas nos anos 1990 — incluindo a instalação de estruturas e placas de titânio para limitar a entrada de água no compartimento de torpedos — permanecem em posição e ajudam a retardar o agravamento do estado do casco. As medições empregaram metodologias radiológicas avançadas, como espectrometria gama e espectrometria de massa com acelerador, para quantificar isótopos como césio, estrôncio, plutônio e urânio em água, sedimentos e organismos marinhos.
Em termos práticos, o caso do Komsomolets funciona como um lembrete técnico sobre como vetores de risco persistem em infraestruturas subaquáticas: o casco do submarino é hoje uma peça da infraestrutura oculta do Atlântico Norte, sujeita a corrosão e à interação com correntes profundas, que agem como um sistema de transporte e diluição. Para governos e instituições europeias, o monitoramento contínuo e as metodologias robustas de medição são os elementos do «alicerce» que permitem avaliar quando intervenções adicionais serão necessárias, sem ceder ao sensacionalismo.
O estudo reforça a necessidade de vigilância prolongada sobre relíquias nucleares submersas e demonstra que, embora a liberação intermitente do reator do Komsomolets seja mensurável, o cenário atual não aponta para uma contaminação extensa. Ainda assim, a evolução lenta e contínua da corrosão impõe um plano de acompanhamento a longo prazo, articulado com modelos de transporte de partículas e planos de mitigação passíveis de execução em águas profundas.