Luca Nitiffi na Câmara: por que a governança global da inteligência artificial exige tratados como o do nuclear

Luca Nitiffi pede tratados globais para a inteligência artificial, comparando a governança da IA à dos acordos nucleares.

Luca Nitiffi na Câmara: por que a governança global da inteligência artificial exige tratados como o do nuclear

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Luca Nitiffi na Câmara: por que a governança global da inteligência artificial exige tratados como o do nuclear

Na apresentação em plenário da Câmara, Luca Nitiffi retomou uma analogia estruturante para compreender a atual revolução digital: não se trata de um risco futuro, mas de uma transformação já em curso que altera os alicerces da vida pública. Nitiffi, ex-presidente da Comissão Roma Capitale na gestão de Walter Veltroni e hoje assessor político de David Sassoli, lançou sua leitura durante o evento dedicado ao livro "Elly e Giorgia allo specchio, crescere nei social senza protezione".

O argumento central foi explícito: as respostas fragmentadas e reativas não bastam diante da difusão da inteligência artificial generativa. “Não podemos encarar o tsunami digital com medidas-tampão, proibições simbólicas ou correções pontuais”, advertiu. A proposta exige, na sua visão, uma mudança de perspectiva que evoque a forma como a comunidade internacional reagiu às capacidades transformadoras da energia nuclear ao longo do século XX.

Para Nitiffi, aquela virada histórica ensinou que avanços com impacto estratégico demandam mecanismos de governança compartilhada — tratados, organismos de verificação e padrões internacionais — não com o objetivo de bloquear o desenvolvimento científico, mas para prevenir consequências descontroladas. Aplicada à atual camada de algoritmos e inteligência, a lição é direta: é preciso uma arquitetura política global que regule usos civis, segurança e a proliferação de tecnologias que atravessam fronteiras.

O conselheiro salientou que a transformação não produz “explosões materiais”, mas tem efeitos profundos sobre a qualidade da democracia, do trabalho, da formação, da privacidade e da segurança. Ao interferir no fluxo de informação — o sistema nervoso das nossas cidades e instituições —, algoritmos podem concentrar poder econômico, manipular opinião pública e substituir competências humanas, enfraquecendo direitos fundamentais se não houver regras claras.

Daí a exigência de Nitiffi por um salto de qualidade na resposta política: não bastam reações episódicas. É necessária uma visão madura que reconheça a historicidade do fenômeno e articule instrumentos em escala global. “A questão não é tecnológica, é política”, afirmou ele, focalizando a capacidade dos democracias de governar a mudança em vez de subi-la.

O apelo final foi pragmático e institucional: nenhum país pode enfrentar sozinho uma tecnologia sem fronteiras. Tal como os tratados nucleares foram indispensáveis para gerir riscos e usos, hoje são precisos novos pactos globais sobre a inteligência artificial — não para frear o progresso, mas para torná-lo humano, seguro e democrático. É um convite a desenhar uma governança que integre ética, proteção de direitos e mecanismos de responsabilidade, compondo uma infraestrutura normativa que sustente a transformação digital.

O lançamento do livro reforça, no debate público, a necessidade de pensar a tecnologia como infraestrutura social: camadas de inteligência incorporadas nas cidades, no trabalho e na política que exigem manutenção regulatória e projetos de longo prazo, não apenas adaptações emergenciais.