Seca devora a Europa: área equivalente a seis vezes a Sicília e impactos econômicos e sanitários

Em 2024 a seca atingiu 156.703 km² na UE; impactos ambientais, econômicos e sanitários exigem respostas urgentes e coordenadas.

Seca devora a Europa: área equivalente a seis vezes a Sicília e impactos econômicos e sanitários

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Seca devora a Europa: área equivalente a seis vezes a Sicília e impactos econômicos e sanitários

Enquanto as luzes da geopolítica se concentram em pontos estratégicos como o Estreito de Hormuz, outro espelho — invisível mas decisivo — reflete um perigo crescente: a seca. Não é uma manchete distante; é a respiração da paisagem europeia que se estreita. Segundo os últimos dados do Eurostat, em 2024 foram afetados 156.703 quilômetros quadrados por escassez hídrica — uma extensão quase do tamanho da Tunísia, ou, para fazer a mesma conta com uma linguagem popular, 22 milhões de campos de futebol. São seis vezes a Sicília.

Os números também contam uma história de aceleração. Os picos registrados em 2018 e 2022 chegaram, respectivamente, a 520.817 e 558.313 km², e a tendência, no decurso do período 2014-2024, foi de aumento progressivo da área afetada. Há doze anos, os eventos de seca atingiam menos de 50 mil km² — um recuo que lembra como o clima tem mudado o mapa da nossa vivência.

O Eurostat destaca que a extensão do território europeu em situação de seca é um indicador-chave do avanço (ou retrocesso) no ODS 15, “Vida na Terra”. Mas a seca tem custo que vai além do ambiente: pesa na economia e na vida das pessoas. O Livro Branco 2026 da Community Valore Acqua, do grupo Teha, calcula um ônus de 227 euros por habitante por ano, somando um impacto total de 13,4 bilhões de euros — aproximadamente o dobro da média europeia. Para entender em termos cotidianos: é como se a economia nacional pausasse por alguns dias.

Quem sente primeiro e mais intensamente essa sede é a terra cultivada. No último decênio, a agricultura italiana viu sua produção cair 7,8% e, só em 2024, os danos ligados a eventos climáticos somaram 8,5 bilhões de euros. Esses números traduzem uma colheita de hábitos que precisa ser reavaliada — seja na gestão da água, seja na escolha de cultivares e práticas que acompanhem um clima que já não é mais o que era.

Há também uma face humana: o Lancet Countdown sobre Saúde e Mudança Climática, elaborado pela OMS e pela University College London, aponta a Itália entre os países mais afetados por ondas de calor. Em 2024, registraram-se 46 dias de ondas de calor e, entre 2012 e 2021, a média foi de cerca de 7.400 mortes anuais associadas ao calor — mais do que o dobro da média do fim dos anos 1990. A cidade, como um organismo vivo, sofre quando o seu tempo interno é forçado a acelerar.

Diante deste quadro, a resposta política foi acionada. Em Paris, durante a ministerial do G7, o ministro do Meio Ambiente, Gilberto Pichetto Fratin, pediu maior financiamento para combater o degradação do solo, a desertificação e a seca. Defendeu que a Coalizão do G7 sobre as águas seja um catalisador de soluções ancoradas em pesquisa e inovação, incluindo a proteção dos solos. Pichetto também ligou fluxos migratórios e conflitos às regiões em processo de desertificação, lembrando o projeto iniciado pelo seu ministério em 2020 para apoiar onze países do Sahel no combate ao declínio da terra.

A seca que hoje mapearmos tem contornos geográficos, mas também traça um mapa de escolhas: como cuidar melhor das nascentes, como reinventar a agricultura, como proteger a saúde nos dias de calor intenso. É uma chamada para uma colheita de ações — pequenas e grandes — que revertem a aridez em oportunidade de resiliência.