Chef em Zurique: recomeço aos 36 anos, subida de cargo e salário num sistema menos exaustivo que na Itália
Chef recomeçou em Zurique aos 36: subiu de cargo, ganhou salário e qualidade de vida; diferença com a Itália está na previsibilidade e menos burocracia.
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Chef em Zurique: recomeço aos 36 anos, subida de cargo e salário num sistema menos exaustivo que na Itália
Por Giulliano Martini. Apuração e cruzamento de fontes direto de Zurique.
Simone Capodicasa, 47 anos, reconstitui em poucas linhas o significado de recomeçar. Em 2015, aos 36 anos, deixou Milão e mudou-se para Zurique. Não era um iniciante: já ocupava a responsabilidade de cozinha na Itália. Mesmo assim, aceitou começar do zero. Uma escolha que, à primeira vista, muitos chamariam de retrocesso; no seu caso, transformou-se numa trajetória ascendente e previsível.
“Aceitei porque queria mudar de vida. Nunca me senti completamente à vontade na Itália, então aproveitei a oportunidade”, conta ele. O primeiro impacto foi pragmático: sem domínio do alemão, as opções restringiam-se majoritariamente a restaurantes italianos. Ainda assim, o mercado não lhe faltou. “Em dois dias já tinha duas propostas; pude até escolher.” Não há romantismo na decisão; há cálculo e confiança nas próprias capacidades e numa estrutura que, em tese, recompensa a meritocracia.
Essa promessa foi cumprida. Em três anos, Simone saiu da posição de simples cozinheiro para chef. “Houve sempre uma progressão regular. Se você trabalha bem e querem mantê-lo, aqui precisam reconhecer isso com salário melhor e com um cargo de maior nível”. Surge aí uma diferença marcante em relação à Itália: não só a possibilidade de ascensão, mas a previsibilidade do percurso profissional.
“Na Itália você sabia quando começava a jornada, mas não quando terminava. Aqui cada minuto extra é registrado e compensado. Quando acumulo oito horas, ganho um dia de folga. São diferenças abissais”, relata Simone, traçando um contraste entre regimes de trabalho, controle de jornada e compensação.
A mudança, porém, não foi apenas profissional. Coincidiu com um período pessoal severo: a doença e morte da mãe, a piora do pai com Alzheimer e o fim da relação com a companheira com quem havia se mudado. “Foi um período muito duro. Muita gente teria voltado. Eu insisti.” O contexto suíço fez a diferença não tanto pelo que acrescentou, mas pelo que retirou: menos burocracia, menos ineficiências e menos estresse cotidiano.
“Se preciso resolver algo nos Correios, levo cinco minutos. Na Itália demoraria uma hora. Parece detalhe, mas somados fazem diferença”, observa. A proximidade geográfica também ajudou: Zurique fica a poucas horas de Milão, e Simone organiza a vida entre o trabalho e viagens para cuidar do pai, revezando-se com a irmã. “Não estava tão distante; isso me permitiu ficar”, diz.
Ao mesmo tempo em que reordenou prioridades familiares, Simone refez a vida afetiva: conheceu a atual esposa e tornou-se pai de dois filhos. A experiência levou-o a avaliar a qualidade de vida de forma direta. “Aqui me sinto em casa. Não sei explicar exatamente por quê, mas é uma combinação de segurança, organização e reconhecimento profissional.”
O relato de Simone é, em essência, um raio-x concreto: mudança calculada, risco controlado, crescimento profissional com critérios transparentes e um cotidiano menos desgastante. Para quem avalia migrar por trabalho, o caso expõe o contraste entre sistemas laborais e sociais — e apresenta uma variável central: a previsibilidade no reconhecimento de funções e salários.
Apuração in loco, ouvido atento às circunstâncias pessoais e cruzamento de informações. Os fatos traduzem uma conclusão clara: em determinados setores e contextos, aceitar recomeçar do zero pode ser a via mais direta para recuperar carreira e bem-estar.