Gioacchino Criaco lança 'Dove canta il cuculo' e reapresenta Africo Vecchio como metáfora do mundo

Novo romance de Gioacchino Criaco, Dove canta il cuculo, reconfigura Africo vecchio e o Aspromonte como metáfora de crime, identidade e poder.

Gioacchino Criaco lança 'Dove canta il cuculo' e reapresenta Africo Vecchio como metáfora do mundo

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Gioacchino Criaco lança 'Dove canta il cuculo' e reapresenta Africo Vecchio como metáfora do mundo

Por Giulliano Martini — Chego direto aos fatos: saiu o novo romance de Gioacchino Criaco, Dove canta il cuculo, e a obra já move uma série de compromissos pelo país. A mudança editorial — dos editores da Feltrinelli para a Piemme (Grupo Mondadori) — acompanha um retorno literário quase duas décadas após Anime Nere, romance de estreia que consagrou Criaco no circuito narrativo e no cinema, com nove David di Donatello.

O eixo da narrativa permanece o mesmo: o coração do Aspromonte, com ênfase em Africo e, sobretudo, em Africo vecchio. É aí, numa montanha dura onde o tempo parece suspenso, que ainda se fala o grego antigo de Homero — a chamada Bovesìa — e que se conserva uma identidade cultural singular. O autor descreve uma paisagem que, longe de ser apenas bucólica, funciona como laboratório de tensões sociais e morais.

O título invoca a figura do cuculo, pássaro migratório e parasita de ninhos: imagem recorrente na literatura, das Fábulas de Esopo a Cime tempestose. No romance de Criaco, o cuculo torna-se metáfora de personagens que ocupam espaços alheios e exploram identidades emprestadas. Salvo Pizzi, um dos protagonistas, surfando entre a aparência de empresário "verde" e uma dupla vida, se declara imune à ameaça da 'ndrangheta — declaração que atua como um espelho de potência e delírio. Gino, outro protagonista, vive num ninho que não é seu desde o nascimento: a história, como o autor revela no desfecho, é construída sobre sucessivos enganos.

Importante ressaltar: o livro não é apenas um noir. A proposta é mais ampla — uma reflexão quase metafísica sobre o mundo, onde legalidade e ilegalidade se entrelaçam e permeiam esferas que vão da política ao empresariado e aos quadros da administração pública. A prosa de Criaco alterna a crueza neorrealista com imagens sensoriais que trazem à página os cheiros das fetas e dos matos do Aspromonte, evidenciando um domínio técnico do detalhe.

O escopo geográfico do romance é amplo: a trama corre de Acapulco à Calabria, de Milão a Toronto, passando pelo México — um mapa que desloca a focalização para os antiprotagonistas, bandidos cultos e inteligentes. Se em Anime Nere a imoralidade marcava o personagem, aqui a distinção é outra: são figuras amorais, cujo código interno não dialoga com convenções éticas usuais. A obra expõe, sem eufemismos, a estrutura de uma organização criminosa calabresa entre as mais poderosas do planeta, enraizada numa terra de contrastes perenes.

O tom do romance se aproxima de uma tragédia clássica — Criaco próprio retoma o termo "tragudìa" — onde o canto do bode serve de lamento e vigilância. Meu balanço técnico, resultado de apuração in loco e cruzamento de fontes, é que Dove canta il cuculo reafirma o autor como voz imprescindível para quem busca compreender as dinâmicas culturais e criminais da Calabria contemporânea, sem concessões ao espetáculo.

Em suma: novo romance, mesma centralidade territorial e temática, salto editorial e uma narrativa que combina noir, etnografia e fábula sombria. A vigilância jornalística segue sobre as leituras públicas e as reações institucionais que a obra provocará nas próximas semanas.